A Bala Perdida e a Justiça


A bala perdida que nos encontra diariamente nos torna parte da notícia. Acerta-nos mesmo de costas para o telejornalismo, mesmo alheio às manchetes estampadas nas bancas de jornais.


Mesmo com colete à prova de fatos existe o risco de sentirmos um frisson na testa, uma sensação de que chegou a nossa hora de assimilar a sensação de terror que advém no dia a dia com o som da metralhadora giratória da informação.


Os costumes estão mudando tanto quanto as opiniões. Há um chafurdar na lama coletiva da percepção de que vivemos numa sociedade homicida, pedófila e corrupta. Não são os deuses que garantem o corpo fechado ante a vassalagem do pensamento exangue de respostas. Não é o corpo estendido no chão ou a marca de sangue na calçada.


A luta se dá contra a hegemonia da bala perdida. Hegemonia da tensão para quem mora no centro das invasões policiais militares, e preocupação deformada para quem vive nos bairros "ricos", mais distantes dos tiroteios, clamando por contra-violência, exortando força policial ou militarista.


A sensação de caos dos telespectadores dos jornais matinais e noturno é muito semelhante ao das platéias de suplícios na idade média porque advém com entretenimentos variados. Imaginem uma multidão sedenta e miserável de compaixão diante de um púlpito em que um herege tem o corpo queimado, imerso em azeite quente ou despedaçado. Hoje, tudo é metáfora liquefeita na amálgama midiática.


Há caça às bruxas, fome de linchamento e ódios discursivos que possuem estreitas ligações arteriais com fetiche autoritário por punição. Mas é interessante refletir sobre o atual momento histórico e como o filósofo Michel Foucault descrevia a pena medieval, enquanto instrumento punitivo:


"Uma pena, para ser um suplício, deve obedecer a três critérios principais: produzir uma certa quantidade de sofrimento que se possa apreciar, comparar e hierarquizar. O suplício correlaciona o tipo de ferimento físico, a qualidade, a intensidade, o tempo dos sofrimentos com a gravidade do crime, a pessoa do criminoso, o nível social de suas vítimas. Além disso, o suplício deve ser marcante: destina-se a tornar infame aquele que é sua vítima. E pelo lado da justiça que o impõe, o suplício deve ser ostentoso, deve ser constatado por todos. O suplício penal é um ritual organizado para a marcação das vítimas e a manifestação do poder que pune."


No plano da realidade submersa à sensação de caos formulada como um padrão na Cidade do Rio de Janeiro, o estado amplia o espetáculo, esconde e desvirtua o sentido das contradições, afunila o sentimento de ódio, coletiviza a ansia por controle e esmagamento da violência.


O pano de fundo é a política, a judicialização do poder de punir e a teatralização da economia. E o alvo central é o corpo institucional em conflagração, o corpo coletivo em submissão e o corpo individual em representação. Tudo achatado na entropia econômica e política que o rap representa tão bem nas perifeiras ao manifestar a opressão sobre os corpos.


Fato é que a imprensa continua asséptica e sectária em sua dimensão pequeno burguesa, e por outro lado, imunda e anárquica na interpretação das relações de causalidade. A sanha punitiva é o pano de frente de um espetáculo que injeta doses diárias de péssimo jornalismo e já definiu que a corrupção é o contraponto e a raiz de todo mal que nos acomete.


Jornalistas emplumados ou intelectualmente soberbos se revezam na desmoralização da política e na divulgação das delações premiadas, combinadas com ações do ministério público e da polícia federal, ambas perfilando diariamente, cada prisão, apreensão e investigação como um rito heróico e analgésico de enfrentamentode uma crise "moral".


A caça aos corpos vampirescos da paz tem uma múltipla cenografia na Tv aberta. A denúncia permanente, as detenções de políticos e empresários, a ocupação de favelas, a radicalização do crime e eloquência "salvadora" dos pastores evangélicos. De qualquer modo, a microfísica dessa interlocução almeja uma panacéia com cara de verdade: o supliciamento público do corpo dos acusados, sejam eles o filho da lavadeira incorporado ao tráfico, e morto ao lado de um fuzil, um motoboy com azar, decaído na linha de fogo, um empreiteiro pervertido com seus carros de luxo, um político com contas no exterior, ou um político qualquer previamente amaldiçoado.


O corpo supliciado corrupto ou corruptor deve se inserir, em primeiro lugar, no cerimonial judiciário que deve trazer à luz a "verdade" do crime político. Se na França da idade média, como na maior parte dos países europeus, todo o processo criminal permanecia secreto, inclusive para o próprio acusado, agora é preciso publicizar os indícios como liame probatório para referendar a sentença. A exceção à lei renasce como espetáculo e como uma regra que tem a pretensão de representar um certo poder obscuro e moral da sociedade, como cúmplice do direito de punir à qualquer custo.


Antigamente os juízes só encontravam o réu uma vez para interrogá-lo antes de dar a sentença. O rei quereria mostrar com isso que a “força soberana” de que se origina o direito de punir não pode em caso algum pertencer à “multidão”. Nos tempos atuais, a "multidão" referenda o direito de punir já na condução coercitiva ou na prisão preventiva, imposta ao corpo do investigado junto com a publicidade do campo acusatório.


As múltiplas dimensões da verdade ou a violação de direitos são menos importantes que o desejo de punir imposto pelo espetáculo. Por isso é preciso despedaçar publicamente o réu e torná-lo inimigo da paz, é preciso reduzi-lo à pecha de bandido, corrupto, criminoso. É preciso coletivizar o direito de punir e descoletivizar a responsabilidade.


A mala de dinheiro e as imagens de mansões passam a justificar qualquer condenação. A morte do policial passa a justificar o justiçamento, o tiro na cabeça do mal que não tem cura. A sociedade, em grande parte perde a noção, porque a falta de noção está no outro. Ao verdugo pouco importa o nexo causal.


As delações e o acusatório se constituem provas tão fortes que não há nenhuma necessidade de acrescentar outras. E a única forma para que a verdade exerça todo o seu poder, é fazer com que o criminoso tome sobre si o próprio crime e ele mesmo assine o que foi obscuramente construído pela informação e pela imagem. Nos bastidores se organizam os atores. São feitos ensaios, o texto é repassado, corrigido e regulado pela seletividade das expectativas.


A demonstração pública do rito policial e penal estabelecido pela operação Lavajato segue os mesmos padrões das crises econômica, política e social que assolam o país. Obedecem a um princípio de gradação contínua: um grau atingido na demonstração de responsabilidade formulada pela imprensa já forma um grau de culpa e implica consequentemente num grau de punição.


Quando se chega a um certo grau de presunção, o que se elaborou no proscênio configura os objetivos e pode-se então legitimamente executar uma prática que tem um duplo papel: começar a punir em razão das opiniões já reunidas; e servir-se deste início de pena para extorquir o resto de verdade que ainda faltava. Nesse contexto, premia-se qualquer texto delatório que faz a platéia aplaudir e propicia seu retorno à mansão com uma coleira e parte do butim prservado. O corruptor muda de lado, adapta seu script e preserva sua liberdade em troca de um remake.


O espetáculo adquire então outro sentido. A culpa é sempre do político escolhido ou do marginal sem escolhas, entes simbólicos que precisam ser supliciados e humilhados. O corpo do criminoso, interrogado no suplício de sua humilhação e confinamento, constitui o ponto de aplicação da força do judiciário e o lugar de extorsão da verdade. Uma "verdade" que precisa de exposição para se "materializar".


O sofrimento por trás do crescimento do desemprego, da violência desmedida e da tortura moral sobre os indivíduos é ao mesmo tempo uma medida para punir e um ato de instrução para manter subjacente a amálgama de interesses corporativos no aparelho de estado.


O formato telejornalístico da violência, sempre desconectado de suas raízes, tal como nas ações do Mickey contra os irmãos metralhas (que já nasceram mal, tal como seus sobrinhos, os metralinhas), é muito parecido com o cerimonial jornalístico que expõe as ações de combate à corrupção do ministério público. Ambas ocultam as consequências econômicas e políticas dos efeitos de uma mecânica de poder.


Tal como nas cerimônias do suplício, o personagem principal é o povo sobre o qual procura-se dar o exemplo provocando um efeito de terror pelo espetáculo do poder tripudiando sobre o culpado.


É muito difícil escapar dessa metralhadora giratória de informação onde a verdade se esconde à contraluz do espetáculo. A bala perdida tem como regra máxima atingir a cabeça, onde está nossa razão. Estamos distraídos, apáticos, expostos e colocados no alvo de nossa própria insansatez. Que é acreditar que o senso comum nos protegerá da verdade.


A bala perdida é tão totalitária quanto a incerteza do continuum histórico que vivemos. É impossível percebê-la em sua trajetória e quase imperceptível tomar consciência de que estamos feridos ou morrendo. O rasgo instantâneo nem sempre causa dor tal a velocidade do metal.

Estar consciente hoje não significa que sobrevivemos. Nossa certeza se resume a saber que sempre haverá renascimento porque a dialética da crise nos induz à reflexão permanente. A exposição dos fatos ressurge ora como magma, ora como água pouco cristalina e nem sempre nos leva a descoberta. Pode parecer potável às vezes. Mas pode também ser um jogo de assassinatos.

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