Breves Comentários Sobre a Cadela


As últimas declarações do General Mourão que comandou a operação brasileira no Haiti, assim como de outros Generais, herdeiros desse patriotismo enviesado que menospreza princípios republicanos e democráticos, podem deixar muitos insatisfeitos com a realidade esperançosos. Até porque acham que o País das Maravilhas, de Alice, é uma espécie de Eden.


As cadelas do fascismo estão ladrando no cio e existem várias delas à espreita na floresta multicolorida desse imaginário coletivo. Demonstra que o analfabetismo funcional em história ainda impera no discernimento de muita gente. Ou que existe uma alfabetização grotesca grassando primaveril nos jardins verde e amarelo de uma parte da elite brasileira.


O coração "verde-amarelo-azul-e-branco-azul-anil" é um ovo de serpente trapezista e suicida, como Max, irmão de Abel Rosenberg, personagem de Igmar Bergman, que, lá pelos idos de 1920 na Alemanha, sem compreender as transformações políticas em curso, vai trabalhar em uma clínica clandestina que faz experiência em seres humanos.


Há vários sintomas dessa germinação e não temos clara consciência se tem capacidade de eclodir. Mas de certo não será um pintinho amarelinho que vai surgir da casca. Até porque, para enfrentar a fúria de tantos males crescentes por uma gestão econômica que se tornou perversa em suas consequências, deteriorando os sistemas de segurança, transporte, saúde e educação, não existem fórmulas salutares para efeitos de curto prazo.


Além do cenário macropolítico em dissensão moral, onde muitos políticos são ao mesmo tempo blindados enquanto outros são atingidos também por balas perdidas de interesses corporativos, ou onde nas ruas, exércitos de bandidos percorrem as favelas num espetáculo televisivo alucinógeno, e ainda, crianças, adolescentes e bebês são mortos com instantaneidade por uma bala com alcunha de "perdida", expandindo o realismo fantástico da notícia para dentro de um sofá, existe um cidadão impávido ante o colosso de sua própria alienação.


Está parecendo impossível interrelacionar a cor imaginada do sangue que explode na cabeça de uma criança e a dor real de uma família quando a notícia nos é transmitida. Ainda mais quando o jornalismo recalca o fato tributário de que um Relator fusilável em praça púlica, devedor de 60 milhões de reais, juntamente com mais dezenas de outros parlamentares que somando devem cerca 3 bilhões de reais à Previdência Social, aprova uma medida concedendo 99% de anista fiscal a si mesmo.


A grua "ética" do telejornalismo caça a caçada ao corrupto sem pudores e com afinidades estratégicas. E consegue fabricar a noção filosófica invertebrada, mas de grande silvo moral, de que os fins justificam os meios, exaltando o ato simbólico de linchamento em detrimento de revelar quem fabrica as armas, quem as distribui, quem se privilegia no abatedouro de um sistema financeiro que sonega e avilta o cidadão com juros exorbitantes.


É importante que um jornalista bem remunerado, âncora de telejornal, se sinta indignado com as quantias vultuosas da corrupção mas não ouse afrontar seus patrocinadores, os Bancos, que faturam quinhentas mil malas Louis Gedel por minuto, com os juros dos cartões de crédito. Assim como é natural não relevar as fortes influências de outros setores corporativistas, sobre sólidas bases parlamentares. Influências regadas a privilégios, benesses e doações que, nas circunstâncias inauditas de terem seus executivos presos, passariam a chamar de propina em troca do benefício de não poder ser processado pelos delitos que delatarem. É a salvaguarda jurídica que um alto empresariado precisa para se manter livre.


Mas para os que defendem a volta triunfal do Exército Brasileiro ao poder, mesmo que às custas da obviedade facista de ter que violar princípios constitucionais, qualquer assintonia pode parecer um delírio esquerdista. Até porque a fábula é bem mais cognitiva e olfativa que a razão, quando a realidade parece não ter sentido algum. E isso só é possível porque é regido por numa sinfonia folhetinesca, fragmentada, fora da história, desafinada aos ouvidos de uma platéia que delira no cio por autoritarismo.


A não peculiaridade do triunfo do que se idealiza, ou realiza, sobre a razão, exposta na libido da intervenção militar, está no fato de que todos os momentos históricos em que esta se sucedeu, foram precedidas de uma forte propaganda anticorrupção, anticriminalidade, antidesordem, anti-crise econômica.


A pobreza e a miséria em si, a falta de saúde ou educação de baixa qualidade, nunca formaram elementos motivadores para tomadas de poder institucional. Nem mesmo a corrupção (quando haviam elementos claros de que empreiteiras e grandes fornecedores públicos, de qualquer área, do distribuidor de remédios aos coletadores de lixo, sempre patrocinaram com propinas as maiorias legislativas), em outros ciclos econômicos de crise, foi motivadora per se, de golpes de estado.

Mas, contrariamente, não por si só, mas como razões institucionais resultantes da aliança de blocos políticos com setores empresariais, nacionais e multinacionais, a corrupção se transforma numa forte arma de propaganda. Desemprego, miséria, saúde e educação, e agora, a insegurança pública, sempre foram instrumentais simbólicos e discursivos para pseudo revoluções e golpes de Estado. E normalmente os setores empresarias que apoiavam ou participavam do statu quo anterior são sacrificados parcialmente e instados a um novo alinhamento.


A perda de referência da manu militari num processo que indiferencia razões de causa e efeito no espaço sociológico de matriz econômica, sempre foi violenta e engendrou redes de influência perversa no âmbito da própria instituição e suas práticas. E o arco de apoiamento empresarial explícito ou oculto, sempre se beneficou de incentivos e anistias fiscais. Combater a corrupção sempre foi uma faca na mão do discurso enquanto justiça fiscal um fim inalcançável. Nenhum General golpista é capaz de denunciar explícitamente a manu militari do sistema financeiro.


Hoje, a cadela do fascismo espreita no cio porque o espaço democrático está permeado de ingerências autoritárias e perversidades jusdiversionistas, de ética tosca, moral rasa e interesses escusos. Ela se oportuniza ante a crise de representatividade e permite aos territórios de exceção exercerem influência e manterem nebulosas suas razões.


Pessoalmente, acho pouco provável uma intervenção militar. O que não significa que possam pipocar quarteladas. Alguns frequentadores do Clube Militar já exercitam isso tomando uísque e fumando charuto. Outros, mandando emails para os velhos companheiros de caserna. Mas se ocorrerem, provavelmente uma parte rala e espalhafatosa de Ipanema, Leblon, Copacabana, Flamengo e Tijuca vai vir a rua com a camisa da internacionalmente corrupta e desmoralizada CBF, emblema da Fifa e bandeira do Brasil, tal como em 1964.


Um novo tipo de marcha, mas da mesma estirpe da "tradição, família e propriedade", vai às ruas com o Movimento Brasil Livre. A FIESP vai se esconder, a Globo vai reclamar com editoriais solenes, Sergio Moro vai ficar calado, o PSDB vai pedir democracia, o DEM vai conchavar, os moradores da Vieira Souto vão colocar faixas nas janelas, os ruralistas vão se tornar simpatizantes, os Evangélicos vão ficar sem entender e o PCC vai cagar e andar.


No entanto, se uma outra parte for às ruas, os sindicatos organizados e as centrais únicas, o MST e os partidos de uma frente de esquerda, os juntamente com uma parte do proletariado urbano desorganizado e com tendências a incendiar propriedade privada e automòveis de luxo, o Exército vai definir o velho posicionamento de lidar com violência contra a violência.


A grande tragédia a ser vivida não é a opção militar, mas o momento histórico com toda sua dimensão asfixiante e às custas de um processo democrático sintomático de nossa insuficiência coletiva, onde o amadurecimento se dá a partir de suas próprias contradições. São estas que nos revelam que não existe um caminho perfeito, candidatos puros, opções transparentes e ações éticas que abram mão do que deve ser feito, quando o que deve ser feito implica em sacrificar a parte pelo todo. Nenhum marketing sobrevive incólume ao julgamento da história.


Como disse Goethe, "não há paraíso sem serpente, nem céu sem demônio.


Mas tudo isso é apenas um exercício ficcional. Quem quiser que não acredite, porque qualquer semelhança não é apenas coincidência.