A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM



Volto a falar na questão da intervenção militar porque está na pauta do debate e o assunto paira como urubu difícil de dar "xô!". Até no silêncio aristocrático do colunismo político o assunto reverbera. E quanto mais a grande mídia aborda com discrição, timidez ou indiferença, mais barulhento o assunto se torna. É uma espécie de "crônica de uma morte anunciada" com ares de araque e penugem de Fênix.


E o curioso dessas manifestações generalísticas é que elas parecem se escudar num princípio da democracia que foi calado durante o regime militar: o direito à livre manifestação da opinião. Se um General americano falasse a mesma coisa por lá seria preso com todas as honras. Aqui a farda tem conotações monárquicas e a subserviência burguesa da mídia.


Tal como no livro de Gabriel Garcia Marques, ameaçar não era crime nem morte anunciada. Ao contrário do livro não temos certeza nenhuma de que nossa democracia, Santiago Nasar, sofrerá mais uma tentativa de assassinato. O mistério do livro, para quem não leu, estava em descobrir quem desonrou Ângela Vicário, que mente sobre para os irmãos na intenção de proteger alguém de quem ela gostava.


O mistério da índole fascista está em esconder seus instintos mais torpes, sua aspiração em ser poder e a homoafetividade masculinidade que a violência inspira. Assim, quando um revoltado on line vem ao facebook repetir que a solução para lidar com o oposicionismo feminista da Maria do Rosário é estuprá-la, estará apenas metaforizando e circunloquiando para uma grande platéia de sociopatas.


Neste mesmo contexto de crime, dissimulação e test drive, o Comandante do Exército comporta-se como se estivesse na Vila do Santiago Nasar e finge que não entendeu. Na entrevista concedida a Pedro Bial, o General Augusto Heleno metaforiza a Constituição e reinterpreta o que disse o General Mourão à luz do casuísmo jurídico institucional de uma nobiliarquia que volta e meia perde mais um fuzil pra traficantes.


No outro "quartel", a esbórnia de uma maioria de deputados, 73 ao todo, envolvidos em denúncias e delações da Lava Jato, há uma ferrenha luta pela sobrevivência. Só que as armas não são obuzes e sim contorcionismos legislativos para promover uma reforma eleitoral no limite da autopreservação. Escutam o Jornal Nacional de noite e de manhã ajustam uns detalhes da lei.


No topo da pirâmide, o Chefe Maior das Forças Armadas, o Presidente herdeiro da subsunção quadrilhesca, enfrenta um "teatro de operações" que tem duas vertentes propagandistas: por um lado, a necessidade de justificar porque ele não é legítimo, mas a derrubada da Dilma foi. E por outro, o imperativo de midiatizar a noção de que a crise moral e ética tem suas origens exclusivamente no governo anterior. É preciso fixar no tempo do imaginário coletivo que este governo e o anterior é um só.


E a história, o persecutório, o investigativo, a constatação e o retroativo jurídico tem que seguir um cronograma interpretativo que oculte as razões mais subjetivas. Por isso se avança para trás em busca dos atos de ofício de quem já está impregnado pelas revelações.


Ao limitar no tempo a retroatividade causal, o discurso moralizante pavimenta o terreno para a eventualidade do possível, lacra os elementos históricos de responsabilidade estrutural e define os parâmetros para tentar erigir uma nova ordem. Seja pela via golpista, seja pela via democrática com os recursos de excepcionalidade adotados pelo judiciário.


Há porém um dado não computado nesse cálculo. O impacto dos reflexos econômicos num ambiente social sobre o qual os urubus podem até pousar em bando que não conseguirão deter seus elementos fermentecíveis. A sociedade brasileira evoluiu para um patamar de diferenciação sociopolítica que transcende o sectarismo à flor da pele.


Até porque Urubu pode até frequentar palestras sobre história e economia na Escola Superior de Guerra, pode ter estudado em Harvard e ter carteirinha da CIA na mesa de cabeceira, pode ser fã de geopolítica e de filmes antiterroristas, pode estudar a fundo psicologia antimarxista e ser formado em antibolivarianismo. Mas não pode conter o empobrecimento de sua própria razão, não pode normatizar o âmbito crítico do pensamento coletivo.


Sob a apatia, o equívoco ou a insensatez eleitoral, existe uma camada úmida de areia e cascalho. O solo é sensível no continum histórico e existe uma rocha mãe que não liga para deslizamentos. As referências mudam de lugar como as montanhas, em processo lento e secular. O território da formação social de uma nação pode paracer inerte, mas é sensível às mudanças do ecossistema.


Numa refloresta de eucaliptos o silêncio é ensurdecedor porque matou-se a diversidade anterior, mas não se matou o território limítrofe onde residem espécies sobreviventes. E não se pode matar as reflexões sobre a diversidade.


A convivência com a crise e seus espectros fantasmagóricos não pode ser enfrentada com uma intervenção militar. E isso é uma lição aprendida pelos golpes de 1945, 1954, 1955, 1961 e 1964, quando as convicções e as certezas de moralização e reordenamento eram tão propagandísticas quanto as do Dalagnol. E as fardas se inscreveram na mesma lógica farsesca de um enfrentamento moral contra a corrupção.


A convicção deve fortalecer a noção de virtude de Donald Trump, mas Kim Jong Un também as tem. E nenhuma delas descarta que uma bomba de hidrogênio seja disparada por um míssel balístico ou os EUA destruam a Coréia com fúria. Já existem os que acham que a visita de Michel Temer aos EUA seja um míssel disparado pelo líder coreano.


Um governo fragilizado pelas notícias, assim como um Supremo encavernado nas contradições de suas decisões, tal como o legislativo desmascarado em seus discursos moralistas, são incapazes de se autoinvestigarem. O cadáver da relação entre o ex-ministro Teori Zavascki e o dono do hotel Emiliano vai continuar enterrado. Gilmar Mendes vai continuar atuando partidariamente. Alexandro de Moraes não vai se livrar de suas influências atávicas e vai seguir o relator somente quando seu voto não for determinante.


O Presidente continuará blindado nos bilhões de reais em emendas que liberou para aqueles que votaram contra o seu impedimento. Os ruralistas e empresários congressitas continuarão a manter sua hegemonia no Congresso e advogando em causa própria.


Existe uma distância subdural entre as notícias, os discursos, os limites das investigações e a realidade. E as forças armadas, no espaço protagonizado pelo sobrevôo do General Mourão, não tem como se distanciar institucionalmente da sociedade. Seu vôo é muito mais de asa delta do que tanque de guerra. Não tem como vestir o capacete de uma salvação e fingir que o teatro de operações não vai custar caro.


O General Mourão pode estar tendo a assessoria do João Kleber e estar fazendo uma espécie de teste de fidelidade institucional, vazando intenções para verificar a extensão da lealdade. Ele já sabe que o governo, o Congresso e o MP não tem peito para questionar sua violação. Já constatou que a maior parte do Jardim Botânico o apóia. Já tem o apoio do juiz que setenciou o direito de psicólogos considerarem a homossexualidade uma doença. Só falta ir dar entrevista para a Ana Maria Braga.


Ele não me parece um soldado com coragem de pegar um helicóptero e jogar granadas na Câmara dos Deputados. É uma fênix translúcida de nostalgia e cartesianismo intelectual militar. Pode ser um alento para quem tem apartamento com varanda e medo de ser assaltado no túnel. Mas sua fala me parece uma bravata que não tem bala suficiente para alterar as regras democráticas, mesmo que combalidas e imperfeitas.


Uma abordagem à parte interpretaria que toda essa sensação de asfixia e impotência, assim como a análise que entranha a percepção de que estamos sem saída, vem a reboque do que repercute na TV e na Internet. E vale destacar que a propaganda está presente como dado concreto no enfoque autoritário dos principais países desenvolvidos para tratar muitas questões internas.


A televisão, tal como as mídias sociais, são elos importantes do processo de resistência ao viés autoritário, mesmo quando a informação é manipulada ou deturpada. Porque o paradoxo é inamovível no interior das burocracias culturais e a pressão por controle não pode garantir a rigidez das ideias. Não pode reprimir a diferenciação, a divergência e o antagonismo, mesmo que sob aparente controle ideológico.


Então eu acho que o nosso "ovo da serpente" é de codorna. Acho que avançamos bastante e sentimos o gosto pelo impulso desenvolvimentista que tivemos no Brasil nos últimos 20 anos, mesmo com todas as suas mazelas. Acho que existem territórios de exceção instalados na dinâmica institucional que configura o nosso modelo de estado. Nos parecem mórbidos porque se articulam com uma parte influente da sociedade e das instituições, o centro e o âmbito de poder. Mas são incapazes de reprimir a aprendizagem crítica.


Minha recomendação diante do "teatro de operações" que o Clube Militar vislumbra se resume à uma frase de Napoleão Bonaparte:


“Nunca interrompa seu inimigo enquanto este estiver cometendo um erro.”




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