A LÓGICA DO FIM DO MUNDO

O mundo não precisa acabar para que possamos acreditar no fim dele. Basta ir ao bar.


Recordo aqui como diria um certo filósofo: o cara que frequenta um bar lotado em plena pandemia, tal como os leões, deve se sentir mais seguro de que Deus está do seu lado, do que uma Gazela.


A ideia de que o mundo pode "acabar" é difusa, dinâmica e transcende os botequinistas. Certo que tem razões de fundo polissêmicas e típicas da sensação de falta de controle, caos e tragédia que nos cercam. Mas às vezes faz sentido a completa ignorância de que vivemos uma era trágica.


Tão trágica que vezes torna-se delicioso abraçar essa distopia (utopia) nada-saudável (adorável) que se nos oferecem os profetas, os analistas militares, os infectologistas, os escritores de histórias em quadrinhos, roteiristas de cinema catástrofe ou mesmo o pastor escalafobético quando lhe convém aumentar o dízimo.


Seja como for é um pitel para raros paladares poder desfrutar dessa convicção maior. Tal como a "fé", requer que o imaginário exerça uma coerção ímpar e não pitagórica sobre nossas certezas e que tenha o poder de uma pimenta introjetada na receita da vida. É um exercício para poucos enlouquecíveis, a certeza de que o fim não será individual, mas coletivo. Ou seu próprio contrário: a de que o fim nunca será individual apesar do coletivo.


Existem fins tão esperados quanto desejáveis. Eles podem ser cheios de uma baba incontrolada, como o orgasmo de imaginar fim do governo atual, ou blasés, como o fim do mundo. Mas essa é uma comparação meio desproporcional visto que a primeira opção deveria ser tão importante quanto a função fisiológica de excretar e acaba tornando banal a segunda. Eu toparia o fim do mundo só pra exterminar o governo atual.


Mas muitos não notam e dão peso inverso aos dois fins, o que amplia a disseminação de substâncias radioativas na camada semântico-filosófica que protege a nossa existência enquanto seres humanos. Essa epidérmica proteção, tal como a camada de ozônio, não pode ser dilacerada sob pena de acabar mesmo com o mundo. Mas, sem dúvida, encontra-se tragicamente ameaçada.


Isso porque temos que aturar quem pensa diferente, mesmo que autoritário, homofóbico, misógino, genocida ou um evangélico a favor da tortura. Mesmo que renegue tudo isso porque defende a pátria, a família e Deus acima de tudo. E agora, além dos clássicos lunáticos, ainda tem esse novo grupo social que dispõe de fartos recursos para beber a noite. Se os criticarmos somos fascistas, contra a liberdade, a democracia, a república e a lei de proteção dos animais.


Em suma, o ataque à camada de inteligência que nos resta é diversificado e difunde-se por todos os segmentos sociais, dos menos aos mais escolarizados. A certeza de finitude que nos rodeia através da religião e da metafísica, do fanatismo ou do pessimismo analítico de filósofos do caos, tem agora um contraponto dialético por meio de uma horda de copo na mão. São os adeptos da infinitude para aqueles que oram no altar notívago dos pontos da moda.


Se escatologia é a explicação de religiões e filosofias para o fim do mundo, a "boêmiologia" bem pode ser a ciência recém fundada que vai estudar esse sentimento de não-fim do mundo que acompanha o desejo incontrolável de beber e nos embolarmos nos bares da cidade. É um sentimento inovador na medida em que, se não temos culpa por infectar alguém durante ou depois uma dessas noitadas, podemos também considerar que o homicídio culposo é uma barbárie sustentada por esse STF fascista.


Muito semelhante à lógica do leão e seu sentimento de proximidade a Deus, a maioria das pessoas goza de uma dose abissal de narcisismo ativo em tempos de pandemia. Ernest Becker, em "A Negação da Morte", fala que "a criança bem alimentada e amada desenvolve um sentido de onipotência mágica, de indestrutibilidade, de poder comprovado e de apoio seguro". Ela pode imaginar-se, lá no fundo, eterna. Podemos dizer que a sua repressão da ideia da morte é facilitada porque a sua vitalidade muito narcísica está fortalecida contra tal ideia.


Encontrar a tribo e se aglomerar em bares pela cidade parece ser algo semelhante ao instinto narcísico das crianças. Há um "foda-se" perverso e que transcende o antibolsonarismo da maioria dessas pessoas que vão pra "festa", esse "multiverso", em plena pandemia. Há uma bolha narcísica cruel quando advertências científicas são menosprezadas e não gozamos dos instintos diretivos dos animais inferiores.


E a questão não está no respeito do direito de ir e vir, na defesa das liberdades individuais ou qualquer outro princípio iluminista que possa ser aplicado para justificar decisões individuais. A questão está no fato de que pessoas geneticamente mais frágeis vão acabar por se encontrar e correm risco de se infectar por conta dessa pessoa que pensa que é um leão, quando no fundo é uma gazela antiética.


Acho que as tentativas do Estado em estabelecer decretos, repressão, coerção e regras para lidar com o caos no sistema de saúde pode parecer justa quando se trata de pretender salvaguardar a infraestrutura que salvará vidas. Mas no fundo sabemos que nada disso funciona se não ligamos uns para os outros, aqueles que sobem no elevador conosco e não sabemos o nome.


Mas no fundo eu acho que escorrego no excessivo pavor de minha finitude quando deveria achar uma chatice ligar pro outro, cumprimentar o outro, ou mesmo, socializar com o outro, tal qual os cachorros de raças diferentes fazem nos parques.


O que tenho que fazer mesmo é urinar no meio do corredor para demarcar meu território e tomar mais diurético pra lidar com a hipocrisia de quem é antifascista em casa e no bar não.


Quando vejo meu cão, sair alucinado no parque, num pique pega infinito atrás dos outros, sua expressão de felicidade e realização, o morder e ser mordido sem machucar o pescoço alheio, fico imaginando que a felicidade maior talvez fosse mesmo se achar imortal e não ter a mínima ideia de que morrerá com quinze ou vinte anos de vida.


Não há como evitar o sarcasmo e essa sensação de infinitude quando vejo esse monte de gente espalhada pelos bares nas noites do Rio de Janeiro. Me alivia porque aí passo a ter certeza de que o mundo não vai acabar. Talvez a espécie humana, o mundo, as outras espécies, jamais. E o Prefeito de Itabuna sabe disso.


Os boemistas são os nossos anti-apocalíticos, os esperançosos de uma nova realidade em que aqueles pesadelos recorrentes da infância, as fobias de insetos, e de cachorros bravos irão desaparecer com o advento da imortalidade. São os filósofos de academia de ginástica que irão prosperar a certeza de que medo e realidade não darão mais as mãos.


No fundo e diante da incompetência mútua da sociedade e do Estado em se proteger, podemos notar que há uma certa regressão ao fantástico mundo da Disney por parte das pessoas, que torna peculiar esse fenômeno de bar lotado e praia cheia, de floresta povoada de animais cantarolando. Isso denota adultos que estão passando por um momento de confusão mental, incapaz de compreender relações básicas de causa e efeito, assim como a percepção de extrema irrealidade quanto aos limites de seus poderes.


A mágica execução do desejo de sair sem infectar ou ser infectado, e ainda, de depois voltar pra casa, acabando por se encontrar com pessoas da família que podem não ter a imunidade necessária ao Covid 19, é uma aventura de mortal potencial estatístico e que pode passar ao largo de quem promove. Mas o que fazer com uma multidão que não podemos colocar no elevador tal como uma criança que nos atormenta, e mandá-la para qualquer andar na esperança de que ela pule de alguma janela.


Segue que o infectante foco de contaminação que igualmente nos atormenta, é, portanto, a impunidade de se sentir infinito antes do fim dos bares. E quando vemos bares cheios somos submetidos a verdade que negamos desde os tempos primordiais, quando Deus disse a Adão que se ele comesse da árvore da sabedoria teria "morte certa". Então muitos preferem um filé aperitivo do que a consciência da própria morte.


O que nos lembra Arthur Schopenhauer que escreveu que "a única alegria do rebanho é quando o lobo come a ovelha do lado". Ou seja, uma parte da sociedade ainda pensa como a ovelha.