DESCRIPTOGRAFANDO

June 26, 2019

 

“O cristianismo não passa de platonismo para o povo…” (Nietzsche)

 

Aqui e no mundo todo, em Quixeramobim ou na Antuérpia, extrapolando Nietzsche, a imprensa, tantas vezes exaltada como um dos pilares da democracia, tornou-se uma espécie de platonismo para as massas.

 

Para entender melhor o que levei décadas para digerir, Hanna Arendt lembra que o principal impasse da filosofia política de Platão perpassa todas as tentativas de estabelecer uma tirania da razão. Isso porque Platão descobriu num determinado momento, que a verdade, isto é, as verdades que chamamos de auto-evidentes, compelem a mente, e que essa coerção, embora não necessite de nenhuma violência para ser eficaz, é mais forte que a persuasão e a discussão.

 

Venhamos e convenhamos. A experiência jornalística tem a obrigação de considerar a premissa shakespeariana de que sempre "há mais coisa entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia", o que não é tarefa fácil para a uma imprensa com perfil de shopping center. O que se vê, no entanto, é que a notícia televisiva é sempre rasa como a lagoa de Maricá, rasinha, movediça e primária como aula de alfabetização. É feita de ladainhas, mantras, produção semântica, representação, significação e contrassignificação.

 

"O problema a respeito da coerção pela razão, contudo, está em que somente a minoria se sujeita a ela, de modo que surge o problema de assegurar com que a maioria, o povo, que constitui em sua própria multiplicidade o organismo político, possa ser submetida à mesma verdade." (O Mito do Inferno em Platão - HA)

 

A produção de verdades passa necessariamente pela compreensão do mito da caverna de Platão. No mito, homens que, desde o nascimento, estão acorrentados ao fundo de uma caverna. Deste lugar, eles podem ver apenas uma coisa: uma parede. Eles nunca foram capazes de sair e nunca foram capazes de olhar para trás para saber a origem das correntes que os prendem. No entanto, há uma parede atrás deles e, um pouco mais adiante, um incêndio. Entre a parede e o fogo estão homens carregando objetos. Graças ao fogo, as sombras dos objetos são projetadas na parede e os homens acorrentados podem vê-los.

 

A argumentação de que não há como provar a autenticidade das mensagens vazadas pelo Intercept considera exclusivamente a hipótese técnica. Tal como enxergar a realidade através das sombras da caverna. Ou de uma produção cenográfica de luz e sombras. Provavelmente a NSA e o IMF (Tom Cruise e sua Força Missão Impossível) discordariam, já que no mundo de hoje os sistemas de inteligência e aplicativos de espionagem conseguem saber até mesmo qual é a cor do pijama do Bolsonaro sem que ele precise ligar o iphone 4 dele.

 

Autênticas ou não, obtidas legalmente ou não, Flamengo ou Vasco, Corinthians ou Palmeiras, ateu ou pentecostal, democrata ou fascista, independente das diferenças de pensamento, a dúvida sobre parcialidade das decisões foi colocada naquele pequeno oratório envidraçado para imagens de santos, ou seja, a berlinda. E na berlinda sob a égide do pensamento crítico, é preciso não ajoelhar para rezar.

 

Como em Direito prevalece sempre a máxima in dubio pro reu, seria preciso aguardar os acontecimentos para que a suposta excrescência possa ser confirmada "laboratorialmente". E isso não ocorrerá facilmente porque a Força Tarefa apagou todas as mensagens da conta do Telegram e já predomina entre os senhores flácidos a tese de que é difícil autenticar as mensagens.

 

Por se considerarem além do bem e do mal, "os intocáveis" não disponibilizaram o acervo de mensagens dos Procuradores da Força Tarefa para que se tornasse "prova" da imparcialidade dos mesmos na condução dos processos. Ao permitir a "destruição" das conversas, colocam-se no direito de questionar a autenticidade das mesmas. Isso, entretanto, expressa um evidente desrespeito para com a legitimidade do que defendem. Soa como mais um escárnio.

 

Mas isso nos faz entender o porque do "inferno de Platão" e da necessidade de desvendar o mito de que é preciso uma minoria "elitista" para convencer a maioria de que a razão pertence a esta mesma minoria que hoje, de ternos impecáveis e retórica sofisticada, uniformes militares e togas de magistrado, reveste a "verdade" com apelos irresistíveis e publicidade esmagadora, tornando, através da emoção e da lógica restritiva do que é possível entrever de dentro da caverna, uma "verdade" manifesta.

 

É importante destacar, que antes mesmo que tais vazamentos viessem à tona, já existiam indícios de alinhamento entre o MP e o Judge Moro. As mensagens, se não são verdadeiras, denotam a pré-existência de um brilhante rábula a combinar as ações com os fatos, as intenções com as repercussões e as inferências com a saga discursiva que enfatizava os aspectos mórbidos das denúncias. O clamor popular do contexto apoiaria, e em grande parte apoia, qualquer excepcionalidade cometida em nome da luta contra corrupção.

 

Isso significa que para essa grande "maioria" de apoiadores, independe se os processos da lava jato seguiram os trâmites normais. Pouco importa o conteúdo ou se transgressões foram cometidas de fato, porque entendem que os fins justificaram os meios e a leitura objetiva é a de que a força tarefa agiu movida pelos mais altos interesses em defesa da democracia.

 

Queiramos ou não, os fatos demonstram uma nítida estratégia de poder que contamina todo processo. Existem interesses não tão difusos que se beneficiaram claramente da forma como a lava jato impossibilitou a sobrevivência das empresas investigadas. Tanto pelo modo como pela extensão dos vazamentos e a parceria com a grande mídia. Tanto pelo modo como pelas restrições efetivas de permitir acordos de leniência de curto prazo.

 

Esse modus operandi derrubou as ações da Petrobras, suspendeu os pagamentos das empresas investigadas, desarticulou os grandes contratos de financiamento e garantias integradas com as grandes obras, desmontou a cadeia produtiva de pequenas e médias empresas que atuavam na base dos projetos e acabou por derrubar um cenário econômico que já sofria o desgaste do embate político que se travava no Congresso com sucessivas pautas bombas lideradas pelo Deputado Eduardo Cunha..

 

Nesse jogo de gato e rato entre a verdade e a mentira o time do conluio continua ficando com o queijo porque é um aliado estratégico do dono da ratoeira. E o dono da ratoeira é um gigantesco rato de botas que sabe fazer espalhafato, posa de herói e é protagonista do conto de fadas jurídico institucional que prevalece preferências políticas e ideológicas ao estado de direito. O Estado pós democrático tem aliados entre nobres e plebeus.

 

Nesse cenário, pouco importa para uma grande maioria se é verdade ou mentira que houve uma aliança contra culpados que eram inocentes ou inocentes que eram de fato culpados. Pouco importa porque caiu na rede é peixe e todos são culpados até que nunca se prove o contrário. E o escândalo que está enterrado, envolve uma suspeita trama de condenações que tornaram livres os homens que eram os mais poderosos empresários da construção pesada do país.

 

Envolve uma dinâmica de libertação de gestores públicos e executivos fundamentais aos esquemas de corrupção, farta remuneração de escritórios especializados em delação premiada e quebra das principais empresas que dominavam os setores estratégicos da indústria que era a locomotiva do desenvolvimento.

 

Nesse processo em que milhões perderam emprego, houve uma espantosa transferência de negócios para empresas estrangeiras, mudanças dos modelos de exploração, participação e controle nos setores de infraestrutura, energia e oportunidades público privada, ainda em andamento.

 

A verdade e a mentira sobre o transcurso jurídico institucional que determinou o "caça às bruxas" submergiu dissociado das consequências e submeteu-se ao imperativo da moral, fato não tão inédito no receituário da tradicional influência do grande capital sobre o Estado.

 

O que impressiona é como um grupo de procuradores do Paraná passou a ditar de forma articulada o "sentimento" nacional, elevando a temperatura de forma a criar uma sensação de que a "impunidade" era uma doença que deveria ser combatida à fórceps, sem anestesia e sem pudores bíblicos ou legais. Impressiona como o imperativo da luta fanatizada contra o PT utilizou dos mesmos meios de manutenção do poder utilizado pelo seu "inimigo".

 

E se tais mensagens são de fato autênticas, a mentira está instalada no frágil discurso do juiz de que agira de forma imparcial. Passa a ser uma mentira formalmente proferida com o intuito de ludibriar, apoiado por uma aliança midiática, uma imensa massa de manobra que não passou do "eva viu a uva". E trata-se de um ludibrio calcado na desfaçatez, no cinismo e na hipocrisia de quem utiliza imoralmente a justiça em nome de si mesmo. Uma circularidade obtusa que tem influências político partidárias. 

 

O que está em jogo no momento não é restabelecer a verdade ou a ordem jurídica. E muito menos anular o processo que condenou Lula. Tais fatos são improváveis e contam com a sibilina imparcialidade de quem controla e é controlado por parte da imprensa, do judiciário, do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal. Além, não tão obviamente falando, dos setores militares que estão na retaguarda dos portões do hospício que se tornou o executivo federal.

 

Há que se destacar o fato de que a maioria dos processos abertos para investigar diversos líderes partidários do PSDB estão perdidos no emaranhado do judiciário. E impressiona a cenografia impetuoso de prestidigitação midiática que faz parecer tratamento equânime quando de fato impede o desenvolvimento das ações e escamoteia o verdadeiro potencial de obter condenação. Nenhum dos processos contra as altas lideranças do tucanato paulista evoluiu. 

 

Mais à direita, quando qualquer antinacionalista ou ultraliberal, com um mínimo de sanidade, se mistura com as novas lideranças do governo, não consegue ficar muito tempo sob a camisa de força do fanatismo da trupe bolsonariana. Mesmo formado na escola que dita que a luta contra o PT é a batalha fundamental do Estado, do pentecostalismo e dos defensores da "bala" e do "boi". As contradições emergem porque trata-se de uma linha de pensamento que se caracteriza pela arrogância e pela dificuldade de lidar com as diferenças. E tem maluco pra tudo nesse hospício.

 

O que revela o atual estado de imparcialidade analfabeta e "loucura" estampada, deste momento em que muitos alucinados buscam estruturas fixas de compreensão da realidade, linguagem e afunilamento moral da sociedade, é o fato de predominar o espírito de que a aparência é mais importante do que a essência, o símbolo que a realidade, o ódio que razão, a manchete que a história, a retórica que o conteúdo. Ou seja, quando jornalistas renomados assumem a tese de que um guardião da moral pode atuar como delinquente comum na suposta defesa da ordem, pode agir contra lei em defesa da lei, é porque a obnubilação desfez o sentido do que representam os pilares do Estado democrático.

 

Não foi à toa que Paulo Freire disse que "não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho." Esse é o liame a transpor na busca incessante pela verdade e melhor compreensão da realidade. E qualquer tentativa de fundamentá-la por meio de uma moral que oculta a realidade é dogmatismo.

 

 

 

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Por Trás do Blog
    Nova Crítica é um espaço de opinião destinado a reflexões críticas fora dos padrões e perspectivas que invadem nosso senso comum. Para além das reflexões ideológicas e influências morais existem caminhos interessantes de serem percorridos.
    A ação de ousar contradizer as primeiras impressões que pairam sobre os fatos de maneira acachapante não é somente um ato de resistência filosófica e política. É um método para lidar com nossos filtros e negações, nossas tentativas e erros na busca por "sabedoria".
    Sylvio Nunes