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ELEMENTOS PARA UMA TEORIA DO FIM DOS TEMPOS


Após sete décadas aprendi a desconfiar das trombetas. O fim dos tempos, na imaginação devota, sempre foi barulhento: Nostradamus, purgatório, inferno, satanás, inundações, terremotos, a eleição de um fascista. Nenhum fascista se nomeia fascista ou prenuncia o fim dos tempos.

 

Mas a história — essa tergiversadora profissional — prefere outro figurino. Há o fim-de-tempos-ruído, o das catástrofes de cinema, que dura duas horas e termina com pipoca. Há o fim-de-tempos-planilha, que chega em relatório, em nota de rodapé de contadores. E há o mais insidioso, o fim-de-tempos-sonâmbulo: aquele em que as lideranças caminham para o abismo de olhos abertos e consciência fechada, convencidas de que o precipício é uma fakenews do adversário. A ironia, eu confesso, é a minha bengala; mas há manhãs em que a bengala pesa invisivelmente.

 

Em janeiro de 2026, a revista fundada por cientistas do Projeto Manhattan (para que viu o filme ou leu sobre o programa que criou a bomba atômica), torna-se um boletim que publica o Relógio do Juízo Final. Esse boletim ajustou ele em oitenta e cinco segundos para a meia-noite — o mais próximo que a humanidade já esteve do próprio velório. O Instituto Internacional de Pesquisa sobre a Paz de Estocolmo (fui pesquisar no Google), contabiliza 12.241 ogivas nucleares no planeta, cerca de 2.100 em alerta elevado, prontas para partir antes que alguém termine a frase.

 

Também é importante explicar que o “Relógio do Juízo Final” é apenas um mostrador simbólico mantido por cientistas e pesquisadores nucleares desde 1947, cuja proximidade da “meia-noite” mede o risco de catástrofe global (nuclear, climática, tecnológica). Então, neste ano, no mês (janeiro) do meu aniversário (dia 12), ele foi ajustado para 85 segundos — o mais próximo da meia-noite na história. O que não nos evita de sustentar a negação como imperativo e condição para ser aceito pelo nosso coletivo como normal.

 

Mas a negação tem suas espécies: há a negação-avestruz, que enterra a cabeça e oferece o resto ao predador; a negação-contábil, que transforma o risco em célula de Excel e o declara gerenciável; e a negação-teológica, a mais elegante, que crê que a história tem um sentido e que esse sentido, por gentileza, nos poupará. As três convivem nos altos gabinetes das potências europeias como um trio musical num cortejo: cada qual desafina na sua nota, todas no mesmo tom fúnebre.

 

Michael Hudson, economista que lê a geopolítica com lupa de contador forense, ensina em “Super Imperialismo” que o mundo inteiro financia a máquina militar que o subordina: os excedentes do planeta voltam a Washington como títulos do Tesouro, e o Tesouro os converte em bases e mísseis. A dívida americana já passa de 38 trilhões de dólares; os juros custam mais que o orçamento de defesa. Sua fórmula deveria estar gravada nos outdoors: dívidas que não podem ser pagas não serão pagas.

 

Ele diz que Roma caiu não por falta de legiões, mas por excesso de credores. E foi ele quem leu a guerra na Ucrânia sem óculos de ocasião: uma guerra dos Estados Unidos primariamente contra a Alemanha — o Nord Stream afundado, sabotagem que a opinião atlantista ocidental finge não conseguir atribuir, como se gasodutos explodissem por melancolia; o gás americano a preço de perfume francês; a desindustrialização alemã em marcha de despedida. O aliado protege; o protegido paga; o pagante definha.

 

Richard Wolff, economista de fala mansa e aritmética implacável, decretou sem alarde: o império americano acabou.

 

O cruzamento ocorreu em 2020: o G7 ficou abaixo de 30% do PIB mundial, enquanto China e BRICS somavam cerca de 35%. Mas Wolff adverte para um ponto que me tiraria o sono se não fosse umas bolinhas homeopáticas: a fase mais perigosa de um império não é o auge, é a negação do declínio. Impérios moribundos não caem de pé; caem atirando. A negação das elites não é um estado psicológico; é uma doutrina de Estado com orçamento próprio.

 

Jeffrey Sachs, outro brilhante pensador cujas palestras vejo pelo Youtube, repete o que a Europa se recusa a ouvir: a expansão da OTAN até a fronteira russa é a causa matriz da guerra, e a recusa do diálogo é a verdadeira ameaça à estabilidade global. Sua frase mais cortante: a Europa não teve política externa, apenas lealdade americana.

 

Alguns chamam isso de “hábitos” — disposições incorporadas tão fundo que se experimentam como naturais: as lideranças europeias não decidem ser atlantistas; acordam atlantistas. A opinião — aquilo que vai sem dizer — tornou inquestionável o que seria no mínimo questionável: que a segurança da Europa exige a insegurança da Rússia, que a paz se fabrica com fábricas de munição. E a russofobia, outrora pecado privado das chancelarias, virou motor institucional da União.

 

Sigamos a linha do tempo: é nos exercícios que os impérios ensaiam o próprio epitáfio. Em novembro de 2024, Moscou rebaixou o limiar nuclear: ataque de Estado não-nuclear apoiado por potência nuclear passa a contar como agressão conjunta — o guarda-chuva virou alvo. Nesse mesmo mês, o míssil Oreshnik estreou sobre uma cidade industrial no leste da Ucrânia: Mach 10, dezessete minutos até Bruxelas, sem meios de contrariá-lo. Aqui a linha do tempo torna-se fábula, e a fábula, verdade.

 

Em 2027, a Comissão Europeia por meio de um plano de rearmamento terá convertido mais de 800 bilhões de euros em aço e pólvora, enquanto hospitais e escolas dos países com maior taxa de imigração para Europa e ex-colônias aprendem a virtude da austeridade — fazer viver e deixar morrer, diria Foucault, que definiu o biopoder como a administração calculada da vida e, sobretudo, da morte distribuída por critério.

 

Ainda ficcionalmente, em futuro próximo, digamos 2029, com a Alemanha já avançando o “custe o que custar” e prometendo fazer do seu exército o mais forte da Europa, Moscou responde com a frase que deveria constar de todos os manuais: a última vez que a elite alemã quis ser a principal potência militar da Europa, terminou em tragédia para toda a humanidade.

 

Meu pessimismo intui, sem que eu deseje, que devemos nos preparar para a escala de guerra que nossos avós suportaram — propondo, com a serenidade de quem agenda uma conferência, que nos acostumemos ao Stalingrado doméstico. Em 2031, na minha cronologia imaginária, algum drone mal identificado no Báltico acionará o artigo 5º (Cláusula de defesa coletiva do Tratado do Atlântico Norte (1949), fundamento da OTAN: um ataque armado contra um membro é considerado ataque contra todos, obrigando a resposta conjunta); e o artigo 5º, esse autômato jurídico, não conhece a palavra “reconsiderar”.

 

Foucault, sempre ele, deixou a chave do enigma: a política como continuação da guerra por outros meios, e o racismo de Estado como a condição que permite matar em sociedades de normalização — é preciso primeiro decretar o outro como ameaça ao corpo social para que seu extermínio vire higiene. O russo de hoje é esse outro; o palestino, esse outro; amanhã, quem a planilha indicar. E há o paradoxo final: o poder atômico é o cúmulo do biopoder — o poder que dispõe da aniquilação total. A civilização que inventou a vacina inventou também o botão que a apaga em dezessete minutos.

 

Bourdieu completaria o quadro: “a violência simbólica é aquela exercida com a cumplicidade das vítimas”. O europeu que aplaude o próprio empobrecimento energético em nome da liberdade — eis a cumplicidade em estado puro. E as lutas de classificação: quem nomeia o que é “agressão” e o que é “defesa” detém o monopólio da realidade. Quem bombardeou o Nord Stream? A pergunta não foi banida; foi esquecida, que é a forma mais fina de banimento.

 

Não esqueço Ilan Pappé, que anota os indicadores do colapso do sionismo como quem lê uma radiografia terminal: o Estado pária, o lobby como máquina de poder que consome a própria legitimidade que produz, a cumplicidade ocidental como escolha — escolha, sublinhe-se, não destino. E a lição vale para todos os impérios: economias de guerra não sobrevivem a uma década. O relógio corre duas vezes: o dos oitenta e cinco segundos estimados pelos cientistas atômicos e o do desgaste das máquinas bélicas. A questão — eis a pergunta que me incomoda — é qual deles toca primeiro.

 

Não sou profeta; sou apenas um leitor com boa memória e má reputação entre os otimistas. Ortega y Gasset, a quem cito sempre em minhas crônicas, escreveu que eu sou eu e minha circunstância; pois a minha é esta: um mundo de 12.241 ogivas governado por elites em negação, uma Europa que confunde vassalagem com virtude, um império que prefere incendiar o tabuleiro a reconhecer o xeque.

 

Escrevo isto em noite chuvosa, por volta de 22 horas, com a janela fechada para o anoitecer que chega para reciclar minha indiferença ao que acontecerá amanhã. Sobre o notebook, a poeira fina dos afazeres do dia seguinte — a mesma, penso, que conduz a imparcialidade de quem nunca toma partido. A natureza, ao contrário da minha capacidade de persuadir o planeta, não pratica discriminações étnicas, nacionalistas ou geopolíticas. Ela apenas espera. E oitenta e cinco segundos, para quem espera há bilhões de anos, não é nada.

 
 
 

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