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Pilha de compartimentos

Crônica Gramatical


Próximos dos meus 70 anos, na busca constante em tentar entender se o entorno do meu percurso é uma distopia, a realidade tal como é, ou mesmo, uma cápsula utópica em que acorrento meu presente com as preocupações sobre o meu futuro, resolvi flanar, “flâner”, como aprendi sobre deambular em Paris. E isso é paradoxalmente, um reles e destacado luxo filosófico vestido de gramática.

 

Mas a vida não é um tapete vermelho. E os tapetes vermelhos são efêmeros, são postos e depostos, tal como as frutas decorativas, a boa recepção, as promessas e os afetos. Esses últimos podem ser “de fato” ou “de jure”, uma espécie de obrigação de fazer implícita para dar concretude. Mas apenas quando há contrato. De resto, tudo que é tácito é subjetivo à ética. E a palavra “ética” é desigual. A ética de Galileu era uma, a do PCC é outra.

 

Então a palavra “vida” pode ser “imensa”, ou mesmo pode ser “trivial”, enquanto nos preocupamos com a solidez do instante, dos amigos, dos parentes, dos ex-amigos, dos lineares, dos oblíquos, dos singelos e dos calculistas. A palavra “trivial” deixa de ser “costumeiro” e se torna “decomposição”, enquanto nos preocupamos com as obrigações, os apaniguados, os compromissos, das dívidas, os acordos aconchegantes e desacordos extenuantes. “Tudo” existe porque existem as palavras.

 

Assim, a gramática classifica as palavras por função, enquanto a vida as classifica melhor pela poética, desdobrando essa tese por meio de enumerações, paradoxos e metáforas sobre corpo, raiz, letra, vogal, consoante e sentido.

 

As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição.

 

Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas, e pra brincar com elas é preciso ter intimidade pra fazer e refazer prompts de inteligência artesanal, suprimir o que é passivo ou artificialmente construível, por novos caminhos oracularmente possíveis. A “palavra” tanto é nesse contexto, “inteligência”, quando busca unir significado e significante, quanto “sabedoria”, quando entende que isso deriva de quatro princípios inseparáveis que Sun Tzu coloca como necessário aos Comandantes: benevolência, sinceridade, coragem e rigor.

 

Nada é mais fúnebre do que a palavra “fúnebre”, nada é mais “amarelo” do que o amarelo palavra, nada é mais concreto do que as letras c-o-n-c-r-e-t-o, ditas nessa ordem: “concreto”. Nesse sentido as palavras agem, sentem e falam por elas próprias.

 

A palavra “nuvem” chove. A palavra “triste” chora. A palavra “sono” dorme. A palavra “tempo” passa. A palavra “fogo” queima. A palavra “faca” corta. A palavra “carro” corre.

 

A palavra “palavra” diz o que quer, e nunca desdiz depois.

As palavras têm corpo e alma, mas são diferentes das pessoas em vários pontos.

 

As palavras dizem o que querem: está dito e pronto. As palavras são sinceras.

As segundas intenções são sempre das pessoas.

 

A palavra “juro” não mente. A palavra “mando” não rouba. A palavra “cor” não destoa.

A palavra “sou” não vira casaca. A palavra “liberdade” não se prende. A palavra “amor” não se acaba.

 

A palavra “ideia” não muda. Palavras nunca mudam de ideia.

Palavras sempre sabem o que querem.

 

“Quero” não será “desisto”. “Sim” nunca jamais será “não”. “Árvore” não será “madeira”. “Lagarta” não será “borboleta”. “Felicidade” não será “traição”. “Tesão” nunca será “amizade”.

 

“Sexta-feira” não vira “sábado”, nem depois da meia noite. Noite nunca vai ser “manhã”, “um” não serão “dois” em tempo algum, “dois” não será solidão, “dor” não será constantemente, “semente” nunca será “flor”.

 

As palavras também têm raízes, mas não se parecem com plantas, a não ser algumas delas: “verde”, “caule”, “folha”, “gota”.

 

As células das palavras são as letras. Algumas são mais importantes do que as outras.

 

As consoantes são um tanto insolentes, roubam as vogais pra construir sílabas e obrigam a língua a dançar dentro da boca. A boca abre ou fecha quando a vogal manda.

 

As palavras fechadas nem sempre são mais tímidas;

a palavra “sem-vergonha” está aí de prova.

“Prova” é uma palavra difícil.

“Porta” é uma palavra que fecha.

“Janela” é uma palavra que abre.

“Entreaberto” é uma palavra que vaza.

“Vigésimo” é uma palavra bem alta.

“Carinho” é uma palavra que falta.

“Miséria” é uma palavra que sobra.

a palavra “óculos” é séria.

a palavra “cambalhota” é engraçada.

a palavra “lágrima” é triste.

a palavra “catástrofe” é trágica.

a palavra “súbito” é rápida.

“Demoradamente” é uma palavra lenta, espelho é uma palavra prata, “ótimo” é uma palavra ótima, “queijo é uma palavra rato, “rato” é uma palavra rua.

 

Existem palavras frias, como “mármore”.

Existem palavras quentes, como “sangue”.

Existem palavras mangue, “caranguejo”.

Existem palavras lusas, “Alentejo”

Existem palavras itálicas, “ciao”.

 

Existem palavras grandes, “inconstitucional”.

Existem palavras pequenas: “microscópico”, “minúsculo”, “molécula”, “partícula”, “quinhão”, “grão”, “covardia”.

 

Existem palavras dia: “feijoada”, “praia”, “boné”, “guarda-sol”.

Existem palavras bonitas: “madrugada”,

Existem palavras complicadas: “enigma”, “trigonometria”, “adolescente”, “casal”.

E existem palavras mágicas: “shazam”, “abracadabra”, “pirlimpimpim”, “sim” e “não”.

Existem palavras que dispensam imagens: “nunca”, “vazio”, “nada”, “escuridão”.

Existem palavras sozinhas: “eu”, “um”, “apenas”, “sertão”.

Existem palavras plurais: “mais”, “muito”, “coletivo”, “milhão”.

Existem palavras que são palavrão!

 

Existem palavras pesadas: “chumbo”, “elefante”, “tonelada”.

Existem palavras doces: “goiabada”, “marshmallow”, “quindim”, “Bombom”.

Existem palavras que andam: “automóveis.

Existem palavras imóveis: “montanha”.

Existem palavras cariocas: “Corcovado”.

Existem palavras completas: “elas todas”.

 

Toda palavra tem a cara do seu significado: A palavra, pela palavra, tirando o seu significado, fica estranha: “palavra... palavra... palavra... palavra.

“palavra” não diz nada, é só letra e som.

 

É a alma da palavra que define, explica, ofende, acende.

Porque as palavras agem, sentem e falam por elas próprias.

 

 

 

 

 
 
 

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