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Pilha de compartimentos

Quando o combate à violência retroalimenta a violência

Há um tipo de frase que se repete com a disciplina de um relógio público: “o Estado precisa retomar o território”. A sentença parece neutra, quase técnica — como se “território” fosse apenas geografia e “retomar” fosse apenas logística. Mas o território, no Rio e no Brasil, é também uma gramática moral: ele define quem merece a cidade e quem deve ser “gerido” pela cidade; quem será protegido pelo direito e quem será governado pelo medo. O problema começa quando a política de segurança transforma essa gramática em método: combate-se a violência com ações táticas violentas, aceita-se o dano colateral como “custo”, e — surpreendentemente, só para quem insiste em não ver — a violência volta maior, mais difusa e mais inteligente.


O paradoxo não é novo, mas ganhou uma estética contemporânea: operações de alto risco como espetáculo de poder. Um poder que, para ser acreditado, precisa ser filmado; e para ser filmado, precisa ser dramático. A violência, então, passa a ter uma utilidade política e midiática: ela produz uma sensação episódica de ordem, enquanto empurra para debaixo do tapete o que realmente organiza a criminalidade no médio prazo — economia, redes, finanças, coalizões, desigualdade. O combate vira uma máquina de retroalimentação: ele ataca o efeito, reforça a causa e, ao final, pede mais do mesmo.


A vitrine do “sucesso”: corpos, fuzis e a ilusão de saneamento


Tomemos o tipo de episódio que costuma inaugurar ciclos de aplauso: operações de grande impacto em complexos densamente povoados. Em 28 de outubro de 2025, uma megaoperação no Complexo do Alemão e na Penha mobilizou milhares de agentes, veículos blindados e um discurso de “asfixia” do crime; a ação teve dezenas de mortos (com relatos divergentes sobre o número total, mas apontado como 113) e foi descrita como uma das mais letais da história recente do Rio.


Na mesma operação, autoridades e imprensa destacaram a apreensão de mais de 100 fuzis sobre mais de 100 corpos como troféu de eficácia do domínio do território e um bálsamo de satisfação simbólica na luta do bem contra o mal.


É precisamente aqui que o raciocínio se embaralha — e o embaraço é funcional. Porque “apreender fuzis” é uma métrica sedutora: é concreta, fotogênica, cabe num card. Já “reduzir governança armada” é invisível, lento, anticlimático. A vitrine vence o saneamento.


Ocorre que o próprio Estado do Rio divulgou que, entre janeiro e outubro de 2025, foram apreendidos 789 fuzis, um recorde da série histórica (desde 2007). E, ainda assim, o mesmo período conviveu com recrudescimento de indicadores letais: em outubro de 2025, o RJ registrou 426 mortes violentas, contra 310 em outubro de 2024 (alta de 37%). Fui buscar esse dado na Agência Brasil.


Se a tese for “mais fuzis apreendidos = violência saneada”, os números estranham a teoria. A alternativa é mais desconfortável, porém mais explicativa: há situações em que a repressão armada, do jeito como é desenhada, organiza o mercado e rearranja a violência, em vez de dissolvê-la. Apreensão vira parte do ciclo econômico do crime: aumenta risco, aumenta preço, aumenta incentivo para reposição; e onde há reposição, há rota, há financiamento, há corrupção, há logística — isto é, há estrutura. Eu não sei se eu sofro de algum tipo de sociopatia quanto tento não ficar penalizado com os corpos e sim com a razão lógica ou matemática dos fatos. E se é conveniente pesquisar os dados e concatenar sua relação com as estruturas de poder ou me manter na superfície, comemorando "menos cem".


Cuido da minha libido e do meu ressentimento ou reflito? Fui assaltado a mão armada. Será que dentre o amontoado de corpos bandidos meu assaltante seria um deles? Ficaria feliz com isso? Que direito tinha esse miserável de afrontar meus privilégios e usurpar a propriedade privada de luxo do meu carro? Ao filosofar ou se fosse eu um representante do Estado, teria o direito de pensar assim?


Dano colateral não é colateral: é tecnologia de governo


A questão é que li Foucault e ele me ajuda a enquadrar uma perspectiva: a violência estatal moderna raramente se assume como brutalidade nua; ela se justifica como gestão — gestão de populações, de riscos, de “zonas perigosas”. A linguagem é sanitária, mas o método é punitivo. Quando a operação “afeta” uma comunidade, o que se produz não é só morte (que já seria demais): produz-se opressão cotidiana e iminência recidiva, ansiedade e angústia metastática. Escolas fecham, comércios param, o transporte some, a casa deixa de ser abrigo, a parede é fina, os filhos são permeáveis, o medo é imperativo, o caminho do trabalho não escoa e a insignificância de Deus paira no barulho do tiro real.


E o efeito político mais profundo não é o susto, a angústia ou o medo — é a sedimentação da percepção de que o Estado é desigual por design: chega de helicóptero, caveirão, assalto logístico na mata e fuzil onde deveria chegar com intervenção urbana, educação massiva, serviços, regularidade e direito.


O Instituto Fogo Cruzado, e isso eu achei pesquisando dados, que monitora tiroteios e impactos de violência armada, mostra como a normalidade vira exceção permanente: apenas entre janeiro e setembro de 2025, foram registrados 1.863 tiroteios/disparos na região metropolitana do Rio; 742 ocorreram durante ações/operações policiais; e 1.206 pessoas foram baleadas no período (com 628 mortas).


Quando parte significativa do risco de ser atingido emerge do próprio modo de operação do Estado, a fronteira entre “combate ao crime” e “produção de perigo” fica moralmente insustentável — mas segue politicamente útil. Predominantemente legitimada como direito de defesa e eticamente sustentada pelo discurso do Estado.


E aqui entra Deleuze, com sua intuição sobre “sociedades de controle”: não é preciso ocupar cada esquina com presença institucional plena; basta modular circulação, medo e acesso. A favela vira uma espécie de laboratório de exceção rotineira, uma zona onde direitos são “negociáveis”, e onde a cidadania aparece como concessão intermitente — uma forma moderna de controle que, paradoxalmente, fabrica aquilo que diz conter: ressentimento, ruptura de laços e, por fim, recrutamento.


O crime como economia: quando a bala é a ponta liminar e patológica de um circuito sofisticado


Enquanto as operações de alto risco fixam a atenção no varejo armado, o atacado do crime opera em outra camada: finanças, lavagem, contratos, empresas de fachada, redes de pagamento, criptomoedas, ouro e joias, e — com um cinismo quase didático — o uso de instrumentos perfeitamente legais para fins perfeitamente ilegais.


Em agosto de 2025, por exemplo, operações conjuntas do governo federal descreveram esquemas bilionários no setor de combustíveis, envolvendo lavagem de dinheiro, fraudes e sonegação, com uso de estruturas societárias complexas, fundos e instituições de pagamento. Houve relato de bloqueios e sequestros de bilhões e de movimentações ilícitas em escala gigantesca; uma das descrições menciona, inclusive, fintechs funcionando como “bancos paralelos” da organização criminosa. Neste mês de dezembro de 2025, a PF também divulgou operação contra lavagem por criptoativos, com movimentações na casa dos bilhões e bloqueios de centenas de milhões.


O contraste é quase caricatural: na base, corpos e fuzis; no topo, engenharia financeira e “compliance” de fachada. A violência tática, quando não acompanha o fio do dinheiro, vira uma tesoura cortando o galho errado: ela faz barulho, mas não estrangula o circuito que repõe armas, paga logística, compra silêncio e reinventa facções em subfacções.


É nesse ponto que a “engenharia multifatorial” brasileira aparece: o aparelho jurídico e ideológico tende a ser duro com o visível e lento com o sofisticado. Não por incapacidade técnica apenas, mas por desenho político: coalizões e interesses criam travas — tributárias, financeiras, regulatórias e institucionais — que tornam a guerra ao varejo uma solução fácil (e televisionável), enquanto a guerra ao atacado exige conflito com elites econômicas, cartórios morais e zonas cinzentas de legalidade.


O interregno e o aplauso mórbido: quando o espetáculo substitui a política


Canso e evito usar Gramsci com receio de que me chamem de comunista. Mas ele descreveu o "interregno" como aquele momento em que o velho morre e o novo não nasce (era assim quando um rei morria e era preciso preparar a sucessão); no intervalo, surgem “sintomas mórbidos”. Eu insisto em usar esse exemplo em minhas conversas de bar entre amigos, quando tento explicar que nossa realidade não é imutável e que há esperança.


O Brasil tem produzido interregnos em série: crises de confiança, descrença em políticas sociais, erosão de expectativas. Nesse vácuo, a operação policial letal vira um ritual de “reafirmação” provisória — sobretudo para segmentos médios cansados e aterrorizados, que confundem o curto prazo emocional com o médio prazo real.


Aqui, a ironia é amarga: a sociedade, como vítima, pede proteção; e como cúmplice, aplaude a forma de proteção que piora o problema. O “sangue nas ruas” opera como placebo: alivia a ansiedade coletiva por alguns dias, enquanto deixa intactas as estruturas que produzem o crime como mercado e a pobreza como destino.


No Rio, esse teatro também se mistura com calendário e crise política. Em 2024, o TRE-RJ julgou improcedente um pedido de cassação do governador Cláudio Castro ligado a acusações de abuso de poder político e econômico (decisão apertada). Em novembro de 2025, o TSE iniciou o julgamento de recursos; a relatora votou pela cassação e inelegibilidade, e o caso foi suspenso por pedido de vista.


Não se trata de dizer — levianamente — que uma operação “é” manobra. Trata-se de notar como o ambiente institucional conturbado aumenta a tentação do governante por atos de grande impacto simbólico: quando a legitimidade está em disputa, o espetáculo punitivo é um atalho sedutor.


Punição em expansão: encarceramento, reincidência e a fábrica de retorno


A crença popular de que “endurecer sempre resolve” ignora um dado básico: punição sem reintegração produz retorno. O Brasil chegou a 941.752 pessoas em cumprimento de pena no primeiro semestre de 2025 (somando celas físicas e prisão domiciliar). E estudos oficiais já indicaram taxas relevantes de reincidência ao longo do tempo — com crescimento acumulado em alguns recortes, reforçando a importância do primeiro ano pós-saída como janela crítica de política pública.


No Rio, o sistema prisional convive com superlotação e déficit de vagas; o Ministério Público estadual já apontou população carcerária acima de 45 mil internos, com insuficiência estrutural. Há uma superprodução de bandidos que se articulam com a constelação externa que os fabricam.


O resultado é previsível: prisão como depósito, escola e gestão, não como transição. A cadeia vira uma instituição de socialização criminal; e a sociedade, exausta, conclui que “precisa prender mais”, realimentando a engrenagem. Ou matar mais, o que, nos moldes atuais, acelera a reposição com as invioláveis tecnologias de desigualdade.


Violências que não viram manchete: fome, rua, escola e doença


Se a violência é tratada como tiroteio e estatística policial, perde-se o centro: a violência é também fome, pobreza, ignorância e doença — um regime de vida precária que prepara o terreno para o domínio armado. É aqui que a necropolítica deixa de ser metáfora: ela vira administração diferencial de quem pode viver com dignidade e quem pode sobreviver com medo. E tem um mercado que lucra com isso: armas, balas, saúde pública, e por aí vai.


O Ipea, analisando dados do CadÚnico, registrou 227 mil pessoas oficialmente em situação de rua (no CadÚnico) em agosto de 2023, apontando fatores econômicos, conflitos familiares e questões de saúde como motores do fenômeno. Isso não é “tema social” separado de segurança pública; é o próprio subsolo da segurança pública. A rua, a escola interrompida, a saúde mental sem cuidado, o trabalho informal crônico — tudo isso é combustível do recrutamento e da aderência comunitária a poderes paralelos.


Quando uma operação fecha a vida cotidiana, ela não “interrompe o crime”; ela interrompe a cidadania. E cidadania interrompida não produz ordem: produz dívida moral com juros.


Por que armar a população agrava o problema


A tese de “armar o cidadão” se vende como autodefesa, mas opera como expansão de estoque circulante. Mais armas em circulação significam mais extravio, mais roubo, mais revenda, mais oferta para facções e milícias. O mercado não tem moral: ele só tem rota. E a rota, numa economia criminal sofisticada, sempre encontra um intermediário “legal” disposto a transformar risco em margem.


Quando a sociedade compra a fantasia do faroeste, o crime compra a logística. E o resultado é um país onde a política pública vira merchandising de sensação: coragem performática, eficácia declarada, fracasso repetido.


Conclusão: da micropolítica do fuzil à macro política de qualquer vida em risco. Seja a de um policial no exercício do dever ou uma criança atrás da parede de um lar violável por direito de defesa.


Eu escrevo este texto movido por uma inquietação simples, embora cercada de fatos desordenados e midiáticos: por que insistimos em tratar o efeito como causa? A resposta, em parte, é emocional: o medo pede alívio imediato. Mas a resposta também é política: o espetáculo rende capital; a prevenção exige paciência, orçamento, coordenação e — sobretudo — conflito com interesses estabelecidos.


Uma teoria plausível, inspirada em Foucault e Deleuze, e tensionada por leituras como as de Safatle sobre colisões (choques que rearranjam regimes de sensibilidade e legitimidade), é que o sistema “combate o mal” de modo a preservar o que o produz: administra o território pela exceção, e administra a desigualdade como se fosse paisagem. Enquanto isso, o crime se moderniza: lava no combustível, no contrato, no fundo, no app, na cripto, no ouro — e terceiriza a ponta armada para o adolescente descartável.


Nada disso significa abrir mão de mitigar efeitos imediatos. Pelo contrário: proteger vidas hoje é inegociável. Mas mitigar efeitos não pode ser confundido com reproduzir causas. O que falta é uma virada de macro política: menos necropolítica, menos contagem de troféus, mais estrangulamento financeiro, mais governança territorial por serviços e direitos, mais accountability de letalidade, mais inteligência do que espetáculo.


Chacinas e apreensões recordes podem produzir um breve “interregno de aplauso”, especialmente em setores médios; mas, se o velho modelo morreu e o novo não nasceu, a coroa passada adiante será apenas a continuidade do mesmo reinado: o reinado da violência que se alimenta do seu próprio combate.

 
 
 

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