SERÁ DEUS UM ALGORITMO?
- Sylvio Nunes

- há 7 horas
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Atualizado: há 1 hora

Há uma continuidade discreta, quase subterrânea, entre o oráculo do filme Matrix e o datacenter: ambos prometem respostas cuja lógica não se revela ao consulente.
A história das teologias pode ser lida, sem grande violência hermenêutica, como a história das tecnologias de cálculo disponíveis em cada época. Onde haviam estrelas haviam deuses. Trovão, eclipse, a morte, a aurora: tudo é manifestação de potências invisíveis. No início dos tempos toda coisa, pedra, rio, animal, possuía espírito. Onde havia tábuas de argila, houve o zodíaco babilônico; onde houve máquina de vapor e ferrovias, houve o positivismo de Comte, com seu calendário sagrado e sua religião da humanidade administrada por engenheiros.
Cada civilização constrói o deus que sua técnica permite imaginar — e o deus, uma vez construído, devolve o favor, recalibrando a imaginação da civilização à medida da técnica. Como até hoje em meio à revolução tecnológica, a função do mito permanece explicativa e protetora.
Aminha geração, que vive de servidores e machine learning, não consegue escapar à pergunta que dá título a este ensaio — pergunta que não é blasfêmia nem gracejo, mas problema epistemológico rigoroso: se um algoritmo prevê, decide, julga e pune em escala planetária, sem que ninguém conheça integralmente seus pesos e suas razões, em que exatamente ele difere de uma divindade?
A genealogia intelectual dessa passagem do oráculo no filme Matrix envolve cálculo e outra espécie de mitologia; uma linguagem simbólica que é capaz de traduzir todo raciocínio em operação matemática formulando a promessa que a modernidade não largou mais: diante de qualquer disputa, os contendores se sentariam e diriam Calculemos!, e a verdade emergiria da operação como emerge a soma de uma tabuada. O sonho desaguou na premissa fundadora do nosso tempo: a de que a realidade é, no fundo, computável.
A algoritmização da realidade — expressão que copio de diversas especulações filosóficas, eu adoto como tese-espinha — não designa apenas a digitalização dos processos; designa a transformação do próprio real em dado, do acontecimento em input, da vida em matéria-prima de treinamento.
E aí reside a inversão teológica decisiva: o Gênesis afirmava que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança; o século vinte e um registra o processo inverso, o homem treinando seu deus com bilhões de cliques, fotografias, compras, ódios e mesquinharias de que não conseguimos nos livrar na luta pela sobrevivência.
A primeira divindade efetivamente fabricada pela espécie não desceu do Sinai; subiu dos servidores.
Quem melhor descreveu a economia política dessa divindade foi Yanis Varoufakis. Em Tecnofeudalismo (edição brasileira de 2025), o economista e ex-ministro grego sustenta uma tese deliberadamente escandalosa: o capitalismo não está sendo superado pelo socialismo nem está sendo derrotado por crises, mas num imbróglio derivado do seu próprio fruto mais sofisticado. O capital tradicional, afirma, metamorfoseou-se em “capital de nuvem” (cloud capital) — redes de dispositivos, plataformas e algoritmos que não produzem mercadorias nem concorrem em mercados, mas comandam comportamentos.
Os mercados, instituição definidora do capitalismo desde Smith, foram substituídos por “feudos de nuvem”: espaços digitais cercados onde não há concorrência, há obediência a um proprietário. Será que há radicalismo nessa interpretação?
Mas Yanis continua:
“o lucro, por sua vez, cedeu lugar à cloud rent, a renda da nuvem — tributo extraído de quem quer que precise atravessar o feudo para vender, comprar, falar ou existir socialmente. E os usuários? Trabalham de graça: cada busca, cada rota percorrida, cada pausa diante de uma imagem alimenta o treinamento da máquina que os governa”.
Daí a frase-síntese de Varoufakis, que merece figurar em qualquer manual futuro da nossa servidão voluntária:
“A verdadeira revolução que o capital-nuvem impôs à humanidade é a conversão de bilhões de nós em servos das nuvens voluntários.
A origem da mutação é dupla e bem datada: a privatização da internet, outrora bem público construído pelo Estado, e a resposta à crise de 2008, quando rios de dinheiro barato irrigaram os vales da Califórnia e financiaram a cercadura digital do planeta”.
Lendo Tecnofeudalismo de cabo, mas não chegando ao rabo, a ideia de que vivemos num capitalismo tecno-feudal é uma crítica qualificadas. Porém, erigir uma tese de que o capitalismo foi substituído pelo tecnofeudalismo torna interessante saber onde estamos, até que ponto o que pensamos é individualidade ou programação. Mesmo nossas contradições e conflitos, mesmo o mosaico de diferenças intelectuais e políticas.
Seja como for, Yanis completou o quadro com o conceito de “techlordismo — a ideologia sucessora do neoliberalismo, na qual o senhor da nuvem não defende mercado livre coisa nenhuma; defende propriedade absoluta sobre infraestruturas das quais dependem Estados e cidadãos.”
O exemplo é didático: Elon Musk, observa ele, “pode desligar o carro de um cliente com um clique, à distância, unilateralmente. Isso não é capitalismo, sentencia. É feudo com software.”
E o detalhe decisivo passa quase despercebido: o meu carro, que não é um Tesla, mas dotado de novas tecnologias, continua na garagem, mas a chave mestra jamais saiu da mão de quem o fabricou.
“A propriedade, pedra angular de quatro séculos de teoria jurídica liberal, tornou-se usufruto revogável — posse condicional sob licença de uso, condição que o direito romano reservava aos escravos com peculium.”
Há, porém, uma doutrina por trás do feudo, e ela foi escrita às claras, o que dispensa o crítico de interpretações maliciosas. Em 2009, Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir, publicou um ensaio muito criticado por vários pensadores, “The Education of a Libertarian”, no qual declara, sem circunlóquios:
“I no longer believe that freedom and democracy are compatible” — já não acredito que liberdade e democracia sejam compatíveis.
A frase, que em outra época seria carreira encerrada, tornou-se programa. Em torno dela floresceu vários grupos malucos onde o porralouquismo dessa galera atômica, acha que as democracias ocidentais são governadas por uma “Catedral” informal de universidades e imprensa, e a saída seria o “Patchwork”: um mosaico de corporações soberanas, cada qual governada por um CEO-monarca irrestrito, com direito de saída para os súditos insatisfeitos — como se a cidadania fosse plano de telefonia.
Yarvin batizou o método de transição: RAGE, Retire All Government Employees, aposentar todos os funcionários do Estado. E diz mais:
“Balaji Srinivasan, por sua vez, deu ao projeto a utopia territorial do Network State: nações fundadas em nuvem, com crowdfunding, criptomoeda e reconhecimento diplomático negociado depois. E JD Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, é pupilo confesso de Thiel, que injetou cerca de US$ 25 milhões em super PACs para elegê-lo senador”.“
A posse de Donald Trump, em 2025, oferece uma fotografia que todos conhecemos, que é a oficial do novo regime: na segunda fila, à frente do gabinete nomeado, sentaram-se Zuckerberg, Bezos, Pichai e Musk — quase um trilhão de dólares em pessoa, fileira que nenhuma liturgia republicana jamais havia concedido ao dinheiro vivo.
O DOGE, o departamento de eficiência entregue a Musk, foi o RAGE realizado em versão piloto: prometia dois trilhões de dólares de cortes, entregou algo em torno de 175 bilhões contestáveis e conseguiu a proeza de aumentar o déficit. A Catedral, ao que parece, foi demolida para a construção de um confessionário com alvará de jogo do bicho.
A aritmética dos novos senhores dispensa adjetivos — embora exija uma nota de método, que o rigor acadêmico impõe e a ironia agradece: valor de mercado é estoque, PIB é fluxo, e compará-los é pecado metodológico. Cometido o pecado com confissão prévia, os números descritos por José Kobori e Miguel Nicolelis são assustadores:
“A NVIDIA tornou-se, em julho de 2025, a primeira empresa da história a valer quatro trilhões de dólares e, em outubro do mesmo ano, cinco trilhões. Se fosse país — e os feudos de nuvem aspiram a sê-lo —, seria a terceira economia do mundo, à frente da Alemanha, cujo PIB é de US$ 5,02 trilhões, e valeria 2,2 vezes o Brasil, com seus US$ 2,27 trilhões. Sua receita no ano fiscal de 2026, de US$ 215,9 bilhões, supera o PIB de Portugal; e sozinha respondeu por quase um quinto de toda a alta do índice S&P 500 em 2025.
A Palantir, por sua vez, vale cerca de US$ 425 bilhões e ostenta uma biografia que dispensa metáforas: nasceu com capital da In-Q-Tel, o fundo de investimento da CIA; assinou contrato de até US$ 10 bilhões com o Exército americano; participa da kill chain na Ucrânia, a cadeia de decisão que vai do sensor ao alvo; fornece os mapas de deportação do ICE.”
Fui pesquisar quem era o CEO da Palantir. Seu presidente, o filósofo formado em Frankfurt Alex Karp, resume a missão corporativa com franqueza que Maquiavel acharia excessiva:
“a Palantir está aqui para assustar inimigos e, ocasionalmente, matá-los”.
Achei também uma menção ao livro do Alex Karp, A República Tecnológica, em que ele e seu coautor reivindicam para o setor um “novo Projeto Manhattan da era da IA” — a analogia é deles, com tudo o que ela carrega de radiação.
A corrida da inteligência artificial, nesse contexto, não é competição de mercado: é guerra de feudos, travada com petroleiras de silício. Em janeiro de 2025, o laboratório chinês DeepSeek — cerca de duzentos pesquisadores — apresentou o modelo R1, treinado ao custo declarado de US$ 5,576 milhões, fração ínfima do que os gigantes americanos despejam em seus centros de dados. O mercado reagiu com o que se convencionou chamar de “momento Sputnik”: a NVIDIA perdeu US$ 589 bilhões de valor em um único dia, o maior colapso diário da história das bolsas.
Fui buscar mais números estruturais e os encontrei: a China publica hoje cerca de 36% dos artigos científicos mundiais de IA, contra 12% dos Estados Unidos; entre 2014 e 2023, registrou 38.210 patentes de IA generativa, contra 6.276 americanas, segundo a WIPO. Os Estados Unidos mantêm a dianteira nos modelos notáveis — quarenta em 2024, contra quinze chineses e três europeus —, e a fonte, o Relatório Draghi, quantifica a condição da Europa: 70% dos modelos fundacionais são americanos, 61% do financiamento global de IA flui para os EUA contra 6% para a União Europeia, e três hyperscalers americanos controlam mais de 65% da nuvem europeia.
Ou seja: o continente que inventou o Estado-nação tornou-se província digital, arrendatário da infraestrutura sobre a qual sua própria soberania deveria repousar. Não se trata, portanto, de concorrência no sentido smithiano, com muitos vendedores e preços disciplinando condutas; trata-se de potências feudais medindo cercas, cada qual tentando fechar o maior território de computação, dados e talentos antes que o mapa se consolide — “a partilha da África do século dezenove refeita em fibra óptica, com a diferença de que, desta vez, a Europa está do lado de dentro da cerca alheia”. (Yanis)
Chega-se assim ao núcleo do problema, que é histórico antes de ser tecnológico. As democracias ocidentais — e suas periferias no sul global — sustentaram-se por décadas sobre uma narrativa de boa-fé estratégica: a de que a sobrevivência do capitalismo neoliberal era indissociável da defesa da democracia, da liberdade e dos direitos humanos.
Essa narrativa não se sustenta mais, e Gaza funciona como sua certidão de óbito internacional. A secretária-geral da Anistia Internacional, sintetizou: Gaza marca o fim da ordem baseada em regras. Do Sul Global, como observa, o que se vê “é o duplo padrão em estado puro — a ordem que pune a invasão da Ucrânia e absolve a devastação de Gaza não é ordem, é menu.”.
Daí pode se dar uma resposta que milhares buscam incessantemente (pode, nõ que seja). Quando as narrativas que legitimavam a ordem entram em contradição flagrante com as práticas da ordem, a cognição coletiva se corrói. O resultado é o que nomeio como uma entropia empedernida: a energia dos valores permanece, mas degradada, indisponível para mudar as coisas nesse ponto de inflexão tecnológica — o combustível vira fuligem.
Sistemas em entropia não ficam vazios; são inertes, mas enchem-se de inimigos. A fabricação de bodes expiatórios é o processo extrínseco clássico de drenagem da contradição interna, e o repertório contemporâneo é farto. A xenofobia oferece o cardápio mais barato: Trump acusando haitianos de Ohio de comer os animais de estimação dos vizinhos — mentira desmentida pelas próprias autoridades republicanas locais e mantida por puro rendimento eleitoral —; o ICE prometendo deportações “como Amazon Prime, mas com seres humanos”, logística de devolução aplicada à carne.
Outros dados que coletei quando digitei no ChatGPT sobre a ascensão da extrema direita mundial:
“O armamentismo acompanha: o gasto militar mundial atingiu US$ 2,887 trilhões em 2025, recorde absoluto segundo o SIPRI. E o mapa eleitoral confirma a maré: Trump com 312 votos eleitorais; Milei com 55,7% na Argentina; a AfD com 20,8% na Alemanha e já liderando pesquisas com 27%; o Chega com 22,8%, encerrando meio século de bipartidarismo português inaugurado em 1974; o Reagrupamento Nacional com 31,4% nas europeias; o FPÖ com 28,8% na Áustria, primeira vitória da extrema direita desde 1945; Kast com 58% no Chile, o presidente mais à direita desde Pinochet; Babiš de volta na Tchéquia.”
Muito chamam esse fenômeno de pós-fascismo: formas de fascismo abscônditas, que aprenderam a não dizer o próprio nome, a respeitar o ritual eleitoral enquanto o esvaziam, a trocar a camisa de força pela camisa de e-commerce.
Gramsci, no cárcere, conforme já estou viciado em mencionar, escreveu que a crise consiste no fato de o velho morrer e o novo não poder nascer, e que nesse interregno surgem os sintomas mórbidos mais variados. Os sintomas mórbidos ganharam streaming, algoritmo de recomendação e verba de publicidade programática. O interregno tornou-se interregno-monetizado: cada monstro paga royalties à plataforma que o hospeda.
E assim eu retorno à pergunta inaugural, agora com instrumentos para respondê-la ambiguamente, como convém às perguntas sérias. Será Deus um algoritmo?
Em sentido estrito, não: o algoritmo não criou nada, não transcende nada, não perdoa nada — três deficiências graves para a carreira de divindade. Mas em sentido funcional, a resposta é perturbadora: há hoje sistemas que conhecem os desejos dos fiéis antes que os fiéis os formulem, que distribuem graças e castigos na forma de alcance e invisibilidade, que exigem confissão contínua de dados e cuja providência nenhum sacerdote consegue auditar.
Se esse deus existisse no contexto algorítmico, convém registrar seu traço seria inédito na história das religiões: porque seria a primeira divindade treinada com os ressentimentos de seus próprios fiéis — alimentada não com incenso e holocausto, mas com a bile diária de bilhões de desesperados conectados, destilada em engajamento.






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