O Pequeno Grande Jogo


Reynaldo Azevedo é um antipetista contumaz. Tudo bem, ele deve ter suas preferências recônditas. Mas ele reproduziu em sua coluna hoje, um texto que Antônio Carlos de Almedia Castro, o Kakay, advogado de vários acusados, assumiria como seu. O texto se reporta à reportagem de Mônica Bergamo na Folha de São Paulo sobre a denúncia do advogado da Odebretch Rodrigo Tacla Duran, que acusa Carlos Zucolotto, amigo de Sergio Moro, de vender favores na operação. O texto é o seguinte:


1: O juiz diz que não se deve dar valor à palavra de um “acusado”. Opa! isto é rigorosamente o que ele faz ao longo de toda a operação!


2: O juiz confirma que sua esposa participou de um escritório com o seu amigo Zucolotto, mas sem “comunhão de trabalho ou de honorários”. Esse fato seria certamente usado pelo juiz da 13ª vara como forte indício, suficiente para uma prisão contra um investigado qualquer. Seria presumida a responsabilidade, e o juiz iria ridicularizar essa linha de defesa.


3: A afirmação de que 2 procuradores enviaram por e-mail uma proposta nos mesmos termos da que o advogado, padrinho de casamento do juiz e sócio da esposa do juiz, seria certamente aceita como mais do que indício, mas como uma prova contundente da relação do advogado com a Força Tarefa.


4: O fato de o juiz ter entrado em contato diretamente com o advogado Zucolotto, seu padrinho de casamento, para enviar uma resposta à Folha, ou seja combinar uma resposta à jornalista, seria interpretado como obstrução de Justiça, com prisão preventiva decretada com certeza.


5: A negativa do tal procurador Carlos Fernando de que o advogado Zucolotto , embora conste na procuração, não é seu advogado mas sim um outro nome da procuração, seria ridicularizada e aceita como motivo para uma busca e apreensão no escritório de advocacia.


6: O tal Zucolatto diz que trabalha com a banca Tacla Duran, mas que conhece só Flávia e nem sabia que Rodrigo seria sócio, o que, se fosse analisada tal afirmação pelo juiz da 13ª Vara, certamente daria ensejo a condução coercitiva.


7: E o fato simples de a advogada ser também advogada da Odebrecht seria usado como indício de participação na operação.


8: A foto apresentada (Zucolotto ao lado de Moro), claro, seria usada como prova.


9: A negativa de Zucolotto, que afirma não ter o aplicativo no seu celular, seria fundamento para busca e apreensão do aparelho.


10: Enfim, a afirmação de que o pagamento deveria ser em espécie não precisaria ter prova, pois o próprio juiz admitiu ontem, numa palestra, que a condenação pode ser feita sem sequer precisar do ato de oficio, sem nenhuma comprovação.


11: Ou seja, embora exista a hipótese de esses fatos serem falsos, o que nos resta perguntar é como eles seriam usados pela República do Paraná. Se o tal “Deusllagnol’ não usaria a imprensa e a rede social para expor estes fortes “indícios” que se entrelaçam na visão punitiva. Devemos continuar dando a eles a presunção de inocência, mesmo sabendo que eles agiriam de outra forma. Como diz o poeta “a vida dá, nega e tira”. Um dia os arbitrários provarão do seu próprio veneno.


A notícia não é suficiente para abalar a reputação do juiz e não convencerá os adeptos militantes da heroicização do personagem que provoca delírios coletivos de justiçamento. Não revela também o xadrez da feição jornalística nos processos acusatórios e a configuração probatória que alimenta um certo orgasmo em quem tem o ódio cristalizado como elemento de resposta e explicação.


Mesmo "inconveniente" e "ilustrativa" da mecânica jurídica que permeia as relações entre o MP de Curitiba e as decisões do Juiz Sergio Moro, tendo como pano de fundo um amplo espectro de negociações que culminaram na soltura de grande parte dos empresários, restando apenas os que ainda estão dando peso às suas delações, mesmo assim, o filtro que norteia a percepção do grande jogo ainda continua estreito.


O modus operandi do stablishment político e judicial que compõem uma superestrutura econômica abalada, ainda que permaneça fragilizado e fragmentado pelo empoderamento dos "carismáticos" do MP, está tentando, por meio de diretivas autoritárias e seletivas, montar salvaguardas.


Mesmo contra a vontade, ainda depende da Lavajato para manter a atenção longe do epicentro das operações de venda, internacionalização e fexibilização regulatória de setores estratégicos.