A IDADE EM QUE ESTOU

"Da criança de cinco anos até mim, é apenas um passo.

Mas do bebê recém-nascido até a criança de 5 anos,

a distância é espantosa." - Leon Tolstoi


Eu não sei em que idade estou. Não que eu tenha esquecido minha própria idade ou sofrendo algum tipo de senilidade. E muito menos que esteja fazendo "tipo".


Estou apenas exercitando, nesse ponto do espaço contínuo de meu tempo, minha cronologia e minha vida, a tentativa do esquecimento ontológico.


Esquecer de "ser" por alguns instantes fornece uma sensação de que não sinto o que aparento "ser". Pode parecer meio esquisito, mas é simples: não me vendo no tempo sinto-me eterno e alheio. Não é um exercício fácil e não dura muito, mas é "permanente" quando pronuncio. Altera a realidade sem que eu precise de dispensar o foco.


Então não sou obrigado ser lúcido, a saber que o tribunal que concedeu prisão domiciliar para uma foragida abriga um juiz cujo arrivismo de bastidores negocia uma indicação para a nossa Suprema Corte. Por isso deixo o tempo, salto, desembarco desse instantâneo de indignação porque haverão muitas a sucedê-la.


O tempo é, portanto, uma interrupção do "nada" para que eu exista. Foi Nietzsche quem disse. Ou não. Na verdade não foi Nietzsche! Fui eu! Mas consegui dar mais relevância ao dito por meio da falsa aparência de que foi dito por Nietzsche. A vida é meio parecida com essa analogia quando cunhamos o que nos parece com definições que derivam da nossa experiência, da nossa deriva intelectual pelo oceano da banalidade em que se torna a coexistência.


Enganei você com a falsa autoria da citação. Mas e daí se o discurso do Presidente não coloca aspas quando fala em Democracia. Ou afirma a eficiência científica da cloroquina, mesmo que contra a opinião de cientistas. Mas as retira quando atua nos subterrâneos do poder para substituir dirigentes que sejam produtivos à família. E mesmo assim consegue nesse breve espaço do tempo, enganar muita gente e conduzir a insensatez para dentro da nau que o tempo nos obriga embarcar.


Por isso paro o tempo e rejeito a evidência de que ele passa. Deixo de coexistir com o tempo proeminente. Retiro o trem da linha férrea, as estrelas do céu. Fixo-me no tempo crítico da prosa sem a austeridade da revolta. Paro e não reclamo da coexistência.


Foi coexistindo que aprendemos o que é um aniversário. Forçaram-nos esse aprendizado desde a mais tenra idade, quando não temos nenhuma noção do sentido lógico da balbúrdia de uma festa para comemorar um ano de vida, daquele momento barulhento, introgressivo, cheio de rituais de agarros e contaminações, caras risonhas, elogios indecifráveis, gente querida me iludindo que teria a proteção por toda existência.


Nesse momento os adultos vendem a primeira mentira emocional que o tempo haveria de ficar tentando me convencer do contrário. A de que não deveria ter medo, pânico, pesadelo, terror ou transtorno de ansiedade porque se viesse a ter fome me dariam peito, se sono poderia dormir dez horas sem culpa e se ficasse doente haveriam hospitais à vontade sem que eu precisasse escolher entre o público ou o privado. Me convenceram que eu era uma espécie de Deus, eterno e onipotente. Tudo giraria ao meu redor. Um Rei Sol, Luis XIV, Versailles ao redor do meu berço e não o Complexo do Alemão.


O que descobri depois tratar-se de um engodo pedagógico e preparatório para um futuro que pode ser interrompido por um estampido, uma trajetória, uma bala perdida. Ou oitenta balas perdidas. A perícia, o noticiário, a lágrima coletiva e o sumário esquecimento. Ou seja, a única possibilidade de eternidade está em acreditar no paraíso, e, o pior ou mais difícil, merecê-lo. O que nos remete a outra mentira caracterológica: crer ou não crer, não eis a questão, porque é radicalmente antidemocrático rejeitar as diferenças.


Merecer a vida eterna depende então de estar conforme um código de valores que vai da convicção e da prática religiosa ao dízimo. E o dízimo é um pedágio alvissareiro, tais quais as indulgências na idade média. Compra a paz interior, uma rede de TV, cotas de publicidade, certezas ideológicas e marketing de rede. Não é propício dizer que o dízimo compra consciências.


A consciência do tempo que temos vai, portanto, crescendo ao longo do tempo. Uma festa de aniversário prega muitas racionalidades banais como a de que temos que comemorar o envelhecer saudável, temos de agradecer a triunfalista "graça" concedida, temos que demonstrar altivez financeira, ou mesmo, o prazer reunir amigos para comemorar nosso sucesso.


Por isso comemoramos aniversário em dois tempos: aquele que retratamos e o que ocultamos.


O tempo tempo que retratamos é um tempo que julgamos real, funciona à margem do relógio mercadológico. É um tempo psicossocial que sobrevive na superfície, no artificial, no simplismo, o deixa pra lá que resolve. É diferente do tempo que ocultamos e que nos dá a noção de um estar factual e interior.


O primeiro é essa intermediação que nos devora sem que possamos manifestar desagrado, infelicidade, pessimismo, falta de dinheiro, desalinho, insegurança, covardia, dor e insatisfação. Ou seja, o tempo é aquele espaço em que não possamos ser infelizes, não devemos ser críticos demais e, principalmente, não devemos polarizar abertamente com os fascistas em campo aberto.


Também é um tempo que rosna contra vacina, a bússola, a curvatura do globo terrestre e o indivíduo desarmado.


Nestes tempos admite-se a verdade combinada, a que exige ocultação, submissão e controle. É também o espaço daquele discurso formal que desveste o andrajo, prevalece a estética tortuosa e valoriza a ética de Chicago como uma espada de Dâmocles sobre nossas cabeças. Fazer o que tem de ser feito, sob o peso de uma lâmina e a incerteza de uma crina de cavalo é uma imposição do nosso tempo na economia que determinará nossa felicidade. Estão, portanto, tentado se apropriar "privatizadamente" do tempo para privatizar o que for possível.


Por outro lado, o tempo "oculto", aquele que denomino "tempo factual" é o que contradiz o imaginário. É o tempo de fato, o percurso mais profundo e sobre o qual repousamos nossas dúvidas, nossas dores, nossas incertezas mais permanentes. Neste espaço subliminar às nossas exteriorizações, damos bom dia quando não o desejamos, dizemos que está tudo bem quando temos dores terríveis nas articulações, fingimos estar bem quando temos câncer, rimos diante de uma tragédia está no noticiário, suportamos a tristeza quando é uma obrigação moral e escondemos a verdade quando a consideramos imprudente.


Fomos indulgentes com o ovo da serpente, agora somos os indigentes do espanto. E neste tempo sem indulgências, a dor do esgotamento é o décimo quinto dia sem água do camelo. O limite.


Acontece que a idade sobre a qual deságua a lucidez não é à prova da água da razão. Não é um traçado geográfico em direção ao oceano, uma passagem para a infinitude, a objetividade repleta de modelos, definições e conceitos, que a maioria das pessoas imagina. Essa é uma idade que opção se refugia na estagnação e no esquecimento seletivo, é uma idade irreversível aos erros estruturais do passado, uma idade que tende a esquecer do tempo porque pensar nele enlouquece.


Mas é sobre o tempo que repousa nossa certeza de que a mudança sempre triunfará. E não estou aqui estabelecendo uma relação de sinonímia entre "mudança" e "esperança". Até porque qualquer esperança é vã quando o "tempo" não favorece um arranjo excepcional de forças. É nesse contexto que prevalece o recesso da razão por uma questão de sobrevivência.


Sobreviver em sanidade aos tempos atuais, quando seu vizinho não enxerga sua própria insanidade e se deleita com o discurso de que se armar é um ato democrático, de que a educação e a saúde devem ser privatizadas, de que a sociedade deve ser militarizada e a sexualidade encarcerada, exige declaração de guerra à finitude, aos relógios, ao pulsar do momento em nossas veias. Trair-se em julgamento em nome da libido, da macheza prosaica e do ódio aos diferentes é uma perfídia quase fisioquímica, é deixar-se iludir por uma inverdade interposta. É desfraldar uma bandeira de metafórica cor preta, imaginando tratar-se de uma de cor verde-amarela.


E parece que essa condição humana, onde verdades radicalmente opostas travam batalhas dolorosas à convivência social, ainda demandam eras de evolução. Desde o princípio o organismo humano tem precisado proteger sua integridade e não consegue superar seu egoísmo. O momento histórico que o Brasil vive revela essa danação no âmbito da política.


Ernest Becker, em "A Negação da Morte" cita como exemplo o problema dos transplantes de órgãos em que "o organismo se protege contra matéria estranha, mesmo que se trate de um novo coração que pode mantê-lo vivo. O próprio protoplasma abriga a si mesmo e adestra a si mesmo contra o mundo, contra invasões a sua integridade."


Então nos custa suportar a triste condição de um tempo difícil porque nos era estranho prever que iríamos retroagir a formas de pensamentos medievais e haveríamos de estar convivendo com a prevalência de pensamentos envelhecidos ou esclerosados em um corpo de país que supunhamos sadio e na verdade não era.


Somos uma nação urdida para esse momento em que emerge um antidemocratismo de cruel jovialidade: que renega a autoestima da soberania, que não se mostra pertinaz em superar a doença do preconceito, que passa ao largo da desigualdade e da ignorância como partes estranhas a si mesma, sendo incapaz de refletir sobre a presença do ódio intestino em suas artérias.


É uma triste condição momentânea, dura concretude que o tempo não ornamenta, estimula ou impede a progressão, neutro que é.


Um tempo em que o esquecimento não significa ausência de sabedoria ou imanência reacionária ao som do tique taque da história. Um tempo que tende a significar um refluir da razão para um organismo mais forte.


Essa é a minha expectativa. Mesmo sendo um tempo em que não sei a idade em que estou.