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GUERRA E PAZ

As estrelas, como se soubessem que agora ninguém as observava, começaram a brincar no céu negro. Ora chamejavam, ora apagavam, ora tremeluziam, enquanto sussurravam afoitas uma para as outras algo alegre, mas misterioso.”

Liev Tolstói, livro Guerra e Paz


O entretenimento classemedista dos últimos dias tem sido falar dos "horrores" da "guerra" (sic), assim mesmo no singular, visto que a conflagração Israel x Palestina se tornou tão próxima e tão mediaticamente superior, que esquecemos das outras.



Ucrânia versus Rússia virou um jogo da segunda divisão. Os outros conflitos que gorgeiam pelo mundo, de origens étnica, civil, terrorista ou religiosa, parecem ter menos assassínios, menos cenografia, menos pele branca ou olhos azuis. Fazem parte da categoria do distanciamento. Tal como os margafagatos (se for procurar não vai encontrar essa espécie em dicionário algum). Porém as guerras existem e são cruéis, afrontam os poetas, os músicos, os pintores, os sorveteiros e pipoqueiros que trabalham nas portas das escolas do Brasil.


Mas vivemos esse distanciado que nos aproxima do imagético, esse realismo com traços de irrealismo. A gente vê as vítimas ensaguentadas e não escutamos a dor. Existe uma diferença entre falar do barulho das explosões e o som do barulho real. Mesmo a ameaça nuclear nos parece algo pouco exterminadora pra se conversar. Tudo parece tão paradoxalmente psicodélico e pacífico quanto os efeitos inimagináveis de um cogumelo nuclear.


O que se passa no Iêmen, no Azerbaijão, na Síria ou na Somália, tem pouca monta, por mais que somemos os mortos. Isso sem considerar a estatística por trás do nosso arcabouço nacional de violência, que por si só mata mais gente que muita guerra por aí. A desgraça grassa de graça, quase sem graça, se não fosse novelísticamente representada em capítulos. E sem conteúdo crítico.


Perdemos completamente o foco na nossa própria humanidade. A morte vai se tornando cada dia mais banal porque sua sensação, a emocionalidade por trás dela, não pode durar a ponto de se tornar psicossomática em nosso dia a dia. Daí a gente dá uma maquiada mental com semântica prá não colapsar e passamos a conversar, cervejear sobre o assunto, no máximo, como se fosse um jogo de futebol. Submergimos na neurolinguística populista em busca da noção anti-intelectual de simplificar pra evitar profundidade.


Difícil construir adjetivos que nos comovam o suficiente para mudar algo importante em nosso entorno. Difícil diferenciar adjetivos que expliquem porque sentimos mais a morte de uma brasileira de 18 anos morta pelo Hamas do que pelos 1.400 israelenses que morreram durante o mesmo evento. E pior, a morte de 500 pessoas num hospital em Gaza ou as mais de 4 mil em bombardeios israelenses nos absolvem de enxergar culpados com facilidade.


Difícil entender porque nos comovemos sem comoção. É mais fácil sentir desejos de vingança, aversão ou estupefação, e muito mais fácil odiar enquanto nos abstemos de refletir em profundidade sobre o que nos é distante histórica e culturalmente.


E nem sempre haverão justificativas conciliáveis para os que se odeiam por milhares de anos seguidos num cenário em que a mágoa coletiva se regenera.


As grandes guerras da humanidade acumulam ódio entre povos por causa de muitas versões denegadas numa trajetória históricamente sangrenta. E nosso modo de interpretar a realidade agarra-se ao entendimento binário quando confrontado pela ideologia. Perdem-se os elos de uma cadeia que tange tudo na noção hermética de que se trata de uma luta do "mau" contra o "bem". E sempre existirão idelogias a justificar cada parte dessa dicotomia.


Por outro lado, quando proferimos que podem existir duas verdades, e que podemos conciliar razões opostas, no íntimo estamos fazendo uma concessão, estamos driblando a falta de lógica para adular nosso antagonista ou propondo uma pacificação. Mas isso nunca ocorrerá conquanto as relações de poder forem equilibradas. E também não ocorrerá quando um dos lados tiver uma dimensão ideológica supremacista, de negação do diferente. A ausência de uma conexão que nos permita entender o outro funda-se no preconceito de raízes históricas e ideológicas.


Na prática, granjeamos o bem estar sectário de pertencer ao nosso grupo ideológico porque dá convicção às nossas ideias. A ideologia é um elemento inerente à estrutura social, não sendo possível, portanto, vivermos para além da ideologia, superando-a definitivamente. Batemos asas em comum, cacarejamos na agitação, agregamos distanciamento quando ciscamos por migalhas. Nosso modus operandi existencial funde-se no da granja em que se forjam nossas compreensões sobre a paz e a guerra.


Até propagam essa lógica de que ideologia são ideias exógenas, exteriores a um corpo social. Ou seja, que ideologia seria um conjunto doutrinário, uma programação, enxertada como um vírus num determinado grupo social. Mas isso é uma abstração simplista do desenvolvimento do conhecimento, não categorizável como ferramenta de compreensão histórica ou sociológica. Eu aceito qualquer perversão do entendimento depois do segundo whisky, mas não misturo com café e nem pego em armas por isso.


Se não temos coragem de nos intrometer quando o que prevalece é a lei do mais forte, ao menos podemos criticar enquanto corremos em busca de uma pedra ou um pedaço de pau. É a forma mais rústica de não fugir da ideologia que considera injustificável a covardia. Os filhos de gângsteres eram orientados assim pelos pais.


O que em regra não significa ser a lei do mais inteligente. Por isso precisamos de verdades simplificadas, bem embaladas, de boa aparência, de boa família, que deem algum sentido à nossa libido reprimida. Principalmente quando a interpretação parece dar um sentido a realidade num momento em que ela não parece fazer sentido algum. É a melhor forma de se esquivar da dor e do sofrimento, mantendo distante aquilo que não nos é próximo.


“Um passo para além daquela linha que lembra a que separa os vivos dos mortos e eis-nos no mundo desconhecido do sofrimento e da morte. E lá adiante que é que está? Lá adiante, para além deste campo e desta árvore e daquele telhado iluminado pelos raios do Sol? Ninguém sabe e ninguém o deseja saber. Toda a gente tem medo de transpor aquela linha...”

Tolstói, Guerra e Paz


Milhões de pessoas nesse exato minuto caminham de um lugar para outro em fuga, no contraponto de ações de Estado, geopolítica, terrorismo, guerras civis, perseguições étnicas ou religiosas. No Iêmen, como divulga as Nações Unidas, lares e hospitais continuam sendo alvos de bombardeios. Com apenas 50% das instalações de saúde do país funcionando, os especialistas alertam que a pandemia da COVID-19 poderá devastar o país.


Nesse perpassar em que milhões de refugiados são transportados para a miséria, caminhando ou se espremendo em campos de concentração a céu aberto, em meio a caos sanitário e contaminação, falta de água, feridos ao relento e corpos espalhados pelo chão em hospitais, "folheamos" pela TV num movimento em plano-sequencia, (Um plano-sequência é um take único em que a ação se desenvolve de forma fluida, sem cortes), fragmentos de rostos de crianças, jovens e adultos pintados com poeira e lamentos. Trata-se de uma leitura (o folhear), impassível, o que me dá a breve sensação de que nos falta razão, quando nos alegramos enquanto o último suspiro é o alheio.


"A única alegria do rebanho é quando o lobo come a ovelha do lado." Arthur Schopenhauer.


Falta equipamento para nos regenerar do mosaico que a percepção banalizadora dos noticiários impõe. Nesse circuito de imagens soberanas que simultaneamente perseguimos e deixamos pra trás, diariamente, em busca de atualizações e explicações, a busca pela verdade se acumula tão sobrepostas em camadas que submergimos num túmulo de inação.


Confundimos Hamas com palestino, terrorismo com territorialismo, nação com poder, civilização com barbárie. Entre a notícia de ontem e a notícia de hoje, o caos humanitário e sentido é perverso no microcosmo de uma criança. Mas isso passa. Isso passa, porque entre uma notícia e outra aparece um magnífico carro elétrico a preço convidativo.

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